domingo, 23 de março de 2008

O FEITIÇO DA DEUSA NEGRA

- Boa noite, Antenor.
- Boa noite – respondeu Antenor enquanto servia-me uma dose de Salto do Meio.
Sentou-se à minha mesa e, nostalgicamente, lembrou-se da Edite
- A bailarina? – lembrei-me. Bons tempos, aqueles...
- Nem me fale - suspirou Antenor

O ano de 1958 foi um marco na vida da boêmia carioca. Foi o nascimento de Edite na noite da Lapa. Quando fez sua estréia no Cabaré Apolo, como bailarina de uma companhia de revistas, com apenas dezoito anos de idade, os boêmios de plantão e os assíduos grã-finos do Apolo viram naquela negra esguia, de corpo escultural, seios fartos e firmes, nádegas salientes, pernas torneadas com cuidado milimétrico, linda, lábios brilhantes, olhos de jabuticaba, e de extrema sensualidade, a figura perfeita de uma deusa. Uma deusa surgida não se sabe de onde, mas, provavelmente, do paraíso, pois estava ali iluminando o ambiente com sua incomensurável beleza. Não demorou para que ficasse conhecida como a Deusa Negra.

A fama de Edite rapidamente espalhou-se pela cidade e o Cabaré foi invadido por gente de toda espécie: juízes, desembargadores, funcionários públicos, gerentes de bancos, almofadinhas desocupados, políticos, cardeais disfarçados em trajes civis, exemplares chefes de família defensores da moral e dos bons costumes, condes italianos de nobreza discutível, poetas que exaltavam sua beleza em poemas intermináveis. Rapidamente, Edite passou a ser a vedete da companhia de revista sem deixar, naturalmente, de causar ciúmes em suas colegas e, principalmente, naquela que foi destronada. Os cartazes luminosos estampavam seu nome em letras garrafais. Ingressos eram disputados a tapa. A loucura tomava conta da cidade.

Foram noites memoráveis. Edite era disputadíssima. Os freqüentadores não hesitavam em gastar pequenas fortunas em champanhes franceses e pagar qualquer preço para tê-la em seus braços, nem que fosse por apenas alguns minutos, em intermináveis suspiros de desejo e paixão. A Deusa Negra enfeitiçava aqueles homens, sem nenhuma compaixão, deixando-os enlouquecidos. Famílias eram desfeitas da noite para o dia. Os jornais estampavam notícias de suicídios na cidade, como nunca se viu antes. Homens jovens, de meia-idade, velhos, enfeitiçados pela beleza da Deusa Negra, e não tendo o amor correspondido, acabavam com a vida. A cidade vivia uma epidemia de suicídios.

Porém, poucos anos foram suficientes para seu reinado começar a desmoronar. Noites intermináveis de orgia, bebida e drogas, foram transformando o corpo e o rosto de Edite. Com apenas 25 anos, sua beleza começou a esvaecer-se. Seus admiradores passaram a evitá-la, o dinheiro sumia, a bela negra estava deixando de ser deusa e já não enfeitiçava ninguém.

Da Lapa para os cabarés de quinta categoria dos subúrbios cariocas e, dali, para os infectos e mal cheirosos inferninhos do cais do porto, freqüentado pela pior escória do submundo carioca e por prostitutas ordinárias, foi um passo. Protegendo esses inferninhos havia sempre uma imagem iluminada de Santo Agostinho, um homem apaixonado que viveu em concubinato e de Santa Maria Egipcíaca, uma prostituta que se converteu ao catolicismo.
A indiferença após suas apresentações cambaleantes era o triste espetáculo que a vida havia reservado para Edite. Ninguém percebia sua presença. Ninguém a via. Não havia aplausos. Não havia vaias. Apenas indiferença. Dormia nos fundos do cabaré, em cima apenas de um colchão, onde, todas as noites, garotos companheiros de infortúnio invadiam seu quarto, sorrateiramente, para satisfazerem-se.

Mas, uma vez por mês, Edite fantasiava seus dias de Deusa Negra, a Feiticeira, quando acontecia a Festa dos Excluídos, na Lapa. Em seus devaneios, como hipnotizada, transformava seu mocó embaixo de um viaduto no Centro, no camarim luxuoso do Cabaré Apolo, onde o espelho quebrado parecia estar rodeado de lâmpadas que iluminavam sua beleza, os aromas do perfume francês e de rosas vermelhas enviadas pelos fãs invadiam o ambiente. Seu copo de cachaça transformava-se em um longo cálice de champanhe francês. Ao vestir sua blusa de mangas compridas enfeitada com fitas de diferentes cores, que apertavam seus seios murchos, e sua mini-saia, de cor vermelho desbotado, auxiliada por imaginárias damas de companhia, sentia-se como se estivesse com suas ricas vestimentas prateadas que cegavam os homens quando a luz refletia. Ao colocar sua bota marrom três-quartos, era como se estivesse calçando seus ricos sapatos de salto agulha. Sua manta pobre transformava-se numa rica estola de vison.

Ao sair de seu imaginário camarim luxuoso, Edite caminhava lentamente em direção ao palco entre bêbados, drogados e loucos, como se estivesse sendo cortejada pelos grã-finos de outrora. “Ouvia” galanteios entre o silêncio mortal de sua passagem. Ao subir ao palco “via” as luzes refletidas em sua direção e seus fãs que gritavam por seu nome. Requebrava descompassadamente ao som de um bolero ou samba-canção saindo um 78 gasto pelo tempo. Em sua vertigem, transformava-se na Deusa Negra que não existia mais.

Na sua última apresentação, ao deixar o palco, Edite foi em direção a mais profunda escuridão da noite, onde desapareceu para sempre. Tinha 45 anos. Nunca mais se ouviu falar de Edite, a Feiticeira, a Deusa Negra, transformada em Bailarina de Rua!

Benjamin