Diariamente ela passa em frente ao Boteco com sua lata cheia d’água. Retorna com a lata vazia e novamente passa com a lata cheia, num vaivém incansável. Não conversa com ninguém. Não olha para ninguém, como se o mundo fosse somente ela. Apenas balbucia algumas palavras para o imaginário que a acompanha.
Sua postura é de uma dama acostumada a caminhar com elegância, passos calculados, devidamente equilibrados em seus sapatos de plataforma ou de salto, como se os anos não passassem. O constante laço azul enrolado na cabeça que deixa escapar alguns fios de cabelos brancos faz parte de uma vestimenta elegante: saia justa com abertura lateral, de cor sóbria, que se estende até o início da meia soquete, blusa branca de mangas compridas e gola olímpica e um colorido lenço em volta do pescoço amarrado à francesa. Seu rosto, moreno apesar da suposta origem, e única parte visível de seu corpo, já mostra sinais de cansaço. Idade? Desconhecida.
- Lá vai a Condessa – diz Antenor.
- Ela é incansável em sua rotina - eu digo enquanto sorvo um gole da Campanari.
Ninguém sabe seu nome. Todos a conhecem como a Condessa. Seu endereço é o mesmo de tantos desiludidos, abandonados, esquecidos, alcoólatras, drogados, loucos: Rua, s/nº. Em sua morada, seu quarto é protegido por um plástico transparente como se fosse um véu de um aposento suntuoso circundando seu colchão sustentado por caixas; um sofá de plástico marrom, onde ela senta-se para conversar com seus fantasmas, enfeita a sala virtual; caixas de madeira guardam roupas, sapatos, utensílios de higiene pessoal, panelas, copos, latas com água, cuidadosamente arrumados, indiferentes ao caos humano ao redor.
Como todo mistério, a vida da Condessa transformou-se numa lenda, quando a fantasia e a realidade estão interligadas por um fio muito frágil. Mas o relato que se segue talvez seja o que mais se aproxima da verdade.
Conta-se que a Condessa desembarcou no porto do Rio de Janeiro há cerca de 20 anos a pleno verão quando até as pedras suavam ao calor do escaldante sol do meio-dia trazendo, apenas, uma pequena bagagem de mão, depois de dois meses de travessia em um navio mercante de bandeira italiana, procedente de Nápoles.
Abandonada e vagando sem rumo no desconhecido sentiu, naquele momento, profunda e triste solidão.
Não demorou para que elegantes proxenetas de plantão da Praça Mauá, com seu inglês barato e sedutor, a abordassem com suas promessas e oferecimentos de amores sabidamente impossíveis. Sem entender o que diziam e carente em sua solidão, não foi difícil para que um deles a conquistasse. Daí para o Mangue, o caminhar noturno pelas ruas do porto e a morada coberta pelo viaduto, foi um passo.
Em seus devaneios noturnos na intimidade de sua morada, cercada pelas luzes tênues das lâmpadas dos postes e pelos pobres néons que teimam em piscar, descompassadamente, diversas nuances de cores, surgem os ricos salões de baile, de sua bela Viena, ricamente iluminados por majestosos lustres de cristais. Os sons dos violinos executando as mais lindas valsas e o rodar alegre e sensual dos pares em volta do salão deixam-na atordoada.
Filha de camponeses migrou do interior para Viena aos 18 anos com a intenção de tornar-se advogada, sonho alimentado enquanto ajudava seus pais na dura tarefa de cultivar o campo. A ainda tímida menina do interior deslumbrava-se com a grandiosidade e riqueza da capital, sonhando em conquistar os locais mais nobres freqüentados pela sociedade vienense. E isso não seria difícil uma vez que sua beleza não passava despercebida aos olhos cobiçosos dos homens.
À medida que o tempo passava a tímida menina transformava-se numa mulher falante, alegre e, principalmente, ambiciosa que encantava a todos que a conheciam. Seu desejo veemente de alcançar riqueza e posição social era a sua maior arma de sedução. E foi com essa poderosa arma que conquistou uma das maiores fortunas de Viena, influente empresário com acesso irrestrito aos mais poderosos governantes, membro da mais fina sociedade vienense, a quem todos, respeitosamente, chamavam de Conde.
Viúvo e disputado pelas mais nobres beldades de Viena, não tanto por sua beleza e jovialidade, já que era um tanto gordo e disforme para os padrões de sonho feminino e na metade dos 50 anos, além do que despertava certo mal-estar pelo suor constante de seu rosto (características insignificantes para quem possui contas bancárias polpudas!), apaixonou-se perdidamente pela jovem camponesa ao encontrá-la num café às margens do Danúbio. Não precisou de muito esforço para conquistar aquela menina sedutora, 30 anos mais nova.
Casaram-se, acontecimento que agitou Viena, não só pela sua grandiosidade mas, também, pela inveja mal disfarçada da mais nobre sociedade vienense. Mas a beleza, charme e elegância da plebéia transformaram-na, imediatamente, na Condessa.
Passaram-se os anos e a Condessa, cercada por jóias e luxo, freqüentando elegantes bailes e recepções, mal conseguia disfarçar sua melancolia, escondida atrás de uma radiante e falsa simpatia. Sentia que sua alma estava vazia e que só poderia ser preenchida por um grande amor, talvez, impossível. Os anos passados ao lado do Conde tinham se transformados em suplício.
Numa daquelas belas tardes luminosas de Viena, quando passeava as margens do Danúbio contemplando sua beleza, nos seus raros momentos de verdadeira felicidade ouviu, ao passar defronte um famoso café, o som mavioso de um violino. Atraída pela bela música aproximou-se e, ao entrar no salão, deparou com um belo e jovem violinista, que fez seu coração disparar ao ritmo da melodia. Seus olhares se encontraram e transmitiram a mútua e instantânea paixão que acabava de nascer.
Passou a freqüentar o café diariamente e não demorou para que o inevitável acontecesse. Ela, madura nos seus 30 anos e ele, crescendo nos seus 17, viveram uma intensa e forte paixão que não passou despercebida pela sociedade. E nem pelo Conde.
Não foi por acaso, portanto, que aquela manhã chuvosa de sexta-feira surgiu triste e opressora, com o céu cinzento e sem vida, mas insuficiente para abalar a felicidade da Condessa. Como fazia quase que diariamente, foi encontrar-se com seu jovem violinista naquele aconchegante apartamento, cúmplice de seus amores desvairados. Repousavam, à meia-luz, depois do amor intenso que acabaram de viver, quando a porta abriu-se e foram cobertos por uma enorme sombra gorda. Sem tempo de reagir, o jovem violinista foi atingido mortalmente por três disparos. Horrorizada, a Condessa reconheceu aquele vulto e, num gesto patético, tentou ocultar sua nudez. O Conde, com os olhos injetados pelo ódio, amor e incompreensão, virou-se para a Condessa, apontou sua arma e atirou. Ouviu-se o forte estrondo de um corpo caindo pesadamente no chão. Ao ver o corpo inerte e sangrando de sua jovem paixão ao seu lado e o pesado corpo daquele que, durante anos satisfez a sua ambição e, agora, jazia no chão com o crânio perfurado, a Condessa desmaiou.
A morte do violinista e o suicídio do Conde abalaram Viena. Três dias após a tragédia a Condessa despertou de seu estado de choque. Aterrorizada, compreendeu o ato do Conde ao deixá-la viva: o castigo de carregar para sempre a culpa pela tragédia.
Execrada pela hipocrisia da sociedade vienense envolvida em amores escusos, a Condessa abandonou Viena. Passou a vagar pela Europa, vendendo seu corpo e sua alma para sobreviver, até que chegou ao porto de Nápoles e embarcou, a troco de cama ao comandante, no navio que a trouxe ao Rio de Janeiro, aonde chegou a pleno verão quando até as pedras suavam ao calor do escaldante sol do meio-dia trazendo, apenas, uma pequena bagagem de mão. Estava, mais uma vez, diante de uma nova e dura realidade do sabor amargo da vida.
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Observava a passagem alegre das pessoas pela calçada do Boteco quando, de repente, fui envolvido pelo som mavioso de um violino. Como que hipnotizado pela melodia triste que saía de suas cordas fui levado pelo som que me conduziu até os aposentos da Condessa. Nesse momento a música parou e deparei-me com o corpo da Condessa que jazia inerte no colchão circundado por seu véu imaginário. Seus olhos estavam abertos e um sorriso de felicidade iluminava seu rosto que agora, mostrava-se, inexplicavelmente, jovial. Por alguns segundos que pareceram uma eternidade fixei meu olhar naquela face que nunca mais esqueci. Coloquei minha mão em seu rosto, fechei seus olhos e, então, finalmente, entendi.
Benjamin
Maio de 2008
Sua postura é de uma dama acostumada a caminhar com elegância, passos calculados, devidamente equilibrados em seus sapatos de plataforma ou de salto, como se os anos não passassem. O constante laço azul enrolado na cabeça que deixa escapar alguns fios de cabelos brancos faz parte de uma vestimenta elegante: saia justa com abertura lateral, de cor sóbria, que se estende até o início da meia soquete, blusa branca de mangas compridas e gola olímpica e um colorido lenço em volta do pescoço amarrado à francesa. Seu rosto, moreno apesar da suposta origem, e única parte visível de seu corpo, já mostra sinais de cansaço. Idade? Desconhecida.
- Lá vai a Condessa – diz Antenor.
- Ela é incansável em sua rotina - eu digo enquanto sorvo um gole da Campanari.
Ninguém sabe seu nome. Todos a conhecem como a Condessa. Seu endereço é o mesmo de tantos desiludidos, abandonados, esquecidos, alcoólatras, drogados, loucos: Rua, s/nº. Em sua morada, seu quarto é protegido por um plástico transparente como se fosse um véu de um aposento suntuoso circundando seu colchão sustentado por caixas; um sofá de plástico marrom, onde ela senta-se para conversar com seus fantasmas, enfeita a sala virtual; caixas de madeira guardam roupas, sapatos, utensílios de higiene pessoal, panelas, copos, latas com água, cuidadosamente arrumados, indiferentes ao caos humano ao redor.
Como todo mistério, a vida da Condessa transformou-se numa lenda, quando a fantasia e a realidade estão interligadas por um fio muito frágil. Mas o relato que se segue talvez seja o que mais se aproxima da verdade.
Conta-se que a Condessa desembarcou no porto do Rio de Janeiro há cerca de 20 anos a pleno verão quando até as pedras suavam ao calor do escaldante sol do meio-dia trazendo, apenas, uma pequena bagagem de mão, depois de dois meses de travessia em um navio mercante de bandeira italiana, procedente de Nápoles.
Abandonada e vagando sem rumo no desconhecido sentiu, naquele momento, profunda e triste solidão.
Não demorou para que elegantes proxenetas de plantão da Praça Mauá, com seu inglês barato e sedutor, a abordassem com suas promessas e oferecimentos de amores sabidamente impossíveis. Sem entender o que diziam e carente em sua solidão, não foi difícil para que um deles a conquistasse. Daí para o Mangue, o caminhar noturno pelas ruas do porto e a morada coberta pelo viaduto, foi um passo.
Em seus devaneios noturnos na intimidade de sua morada, cercada pelas luzes tênues das lâmpadas dos postes e pelos pobres néons que teimam em piscar, descompassadamente, diversas nuances de cores, surgem os ricos salões de baile, de sua bela Viena, ricamente iluminados por majestosos lustres de cristais. Os sons dos violinos executando as mais lindas valsas e o rodar alegre e sensual dos pares em volta do salão deixam-na atordoada.
Filha de camponeses migrou do interior para Viena aos 18 anos com a intenção de tornar-se advogada, sonho alimentado enquanto ajudava seus pais na dura tarefa de cultivar o campo. A ainda tímida menina do interior deslumbrava-se com a grandiosidade e riqueza da capital, sonhando em conquistar os locais mais nobres freqüentados pela sociedade vienense. E isso não seria difícil uma vez que sua beleza não passava despercebida aos olhos cobiçosos dos homens.
À medida que o tempo passava a tímida menina transformava-se numa mulher falante, alegre e, principalmente, ambiciosa que encantava a todos que a conheciam. Seu desejo veemente de alcançar riqueza e posição social era a sua maior arma de sedução. E foi com essa poderosa arma que conquistou uma das maiores fortunas de Viena, influente empresário com acesso irrestrito aos mais poderosos governantes, membro da mais fina sociedade vienense, a quem todos, respeitosamente, chamavam de Conde.
Viúvo e disputado pelas mais nobres beldades de Viena, não tanto por sua beleza e jovialidade, já que era um tanto gordo e disforme para os padrões de sonho feminino e na metade dos 50 anos, além do que despertava certo mal-estar pelo suor constante de seu rosto (características insignificantes para quem possui contas bancárias polpudas!), apaixonou-se perdidamente pela jovem camponesa ao encontrá-la num café às margens do Danúbio. Não precisou de muito esforço para conquistar aquela menina sedutora, 30 anos mais nova.
Casaram-se, acontecimento que agitou Viena, não só pela sua grandiosidade mas, também, pela inveja mal disfarçada da mais nobre sociedade vienense. Mas a beleza, charme e elegância da plebéia transformaram-na, imediatamente, na Condessa.
Passaram-se os anos e a Condessa, cercada por jóias e luxo, freqüentando elegantes bailes e recepções, mal conseguia disfarçar sua melancolia, escondida atrás de uma radiante e falsa simpatia. Sentia que sua alma estava vazia e que só poderia ser preenchida por um grande amor, talvez, impossível. Os anos passados ao lado do Conde tinham se transformados em suplício.
Numa daquelas belas tardes luminosas de Viena, quando passeava as margens do Danúbio contemplando sua beleza, nos seus raros momentos de verdadeira felicidade ouviu, ao passar defronte um famoso café, o som mavioso de um violino. Atraída pela bela música aproximou-se e, ao entrar no salão, deparou com um belo e jovem violinista, que fez seu coração disparar ao ritmo da melodia. Seus olhares se encontraram e transmitiram a mútua e instantânea paixão que acabava de nascer.
Passou a freqüentar o café diariamente e não demorou para que o inevitável acontecesse. Ela, madura nos seus 30 anos e ele, crescendo nos seus 17, viveram uma intensa e forte paixão que não passou despercebida pela sociedade. E nem pelo Conde.
Não foi por acaso, portanto, que aquela manhã chuvosa de sexta-feira surgiu triste e opressora, com o céu cinzento e sem vida, mas insuficiente para abalar a felicidade da Condessa. Como fazia quase que diariamente, foi encontrar-se com seu jovem violinista naquele aconchegante apartamento, cúmplice de seus amores desvairados. Repousavam, à meia-luz, depois do amor intenso que acabaram de viver, quando a porta abriu-se e foram cobertos por uma enorme sombra gorda. Sem tempo de reagir, o jovem violinista foi atingido mortalmente por três disparos. Horrorizada, a Condessa reconheceu aquele vulto e, num gesto patético, tentou ocultar sua nudez. O Conde, com os olhos injetados pelo ódio, amor e incompreensão, virou-se para a Condessa, apontou sua arma e atirou. Ouviu-se o forte estrondo de um corpo caindo pesadamente no chão. Ao ver o corpo inerte e sangrando de sua jovem paixão ao seu lado e o pesado corpo daquele que, durante anos satisfez a sua ambição e, agora, jazia no chão com o crânio perfurado, a Condessa desmaiou.
A morte do violinista e o suicídio do Conde abalaram Viena. Três dias após a tragédia a Condessa despertou de seu estado de choque. Aterrorizada, compreendeu o ato do Conde ao deixá-la viva: o castigo de carregar para sempre a culpa pela tragédia.
Execrada pela hipocrisia da sociedade vienense envolvida em amores escusos, a Condessa abandonou Viena. Passou a vagar pela Europa, vendendo seu corpo e sua alma para sobreviver, até que chegou ao porto de Nápoles e embarcou, a troco de cama ao comandante, no navio que a trouxe ao Rio de Janeiro, aonde chegou a pleno verão quando até as pedras suavam ao calor do escaldante sol do meio-dia trazendo, apenas, uma pequena bagagem de mão. Estava, mais uma vez, diante de uma nova e dura realidade do sabor amargo da vida.
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Observava a passagem alegre das pessoas pela calçada do Boteco quando, de repente, fui envolvido pelo som mavioso de um violino. Como que hipnotizado pela melodia triste que saía de suas cordas fui levado pelo som que me conduziu até os aposentos da Condessa. Nesse momento a música parou e deparei-me com o corpo da Condessa que jazia inerte no colchão circundado por seu véu imaginário. Seus olhos estavam abertos e um sorriso de felicidade iluminava seu rosto que agora, mostrava-se, inexplicavelmente, jovial. Por alguns segundos que pareceram uma eternidade fixei meu olhar naquela face que nunca mais esqueci. Coloquei minha mão em seu rosto, fechei seus olhos e, então, finalmente, entendi.
Benjamin
Maio de 2008