sábado, 24 de maio de 2008

A CONDESSA

Diariamente ela passa em frente ao Boteco com sua lata cheia d’água. Retorna com a lata vazia e novamente passa com a lata cheia, num vaivém incansável. Não conversa com ninguém. Não olha para ninguém, como se o mundo fosse somente ela. Apenas balbucia algumas palavras para o imaginário que a acompanha.
Sua postura é de uma dama acostumada a caminhar com elegância, passos calculados, devidamente equilibrados em seus sapatos de plataforma ou de salto, como se os anos não passassem. O constante laço azul enrolado na cabeça que deixa escapar alguns fios de cabelos brancos faz parte de uma vestimenta elegante: saia justa com abertura lateral, de cor sóbria, que se estende até o início da meia soquete, blusa branca de mangas compridas e gola olímpica e um colorido lenço em volta do pescoço amarrado à francesa. Seu rosto, moreno apesar da suposta origem, e única parte visível de seu corpo, já mostra sinais de cansaço. Idade? Desconhecida.
- Lá vai a Condessa – diz Antenor.
- Ela é incansável em sua rotina - eu digo enquanto sorvo um gole da Campanari.
Ninguém sabe seu nome. Todos a conhecem como a Condessa. Seu endereço é o mesmo de tantos desiludidos, abandonados, esquecidos, alcoólatras, drogados, loucos: Rua, s/nº. Em sua morada, seu quarto é protegido por um plástico transparente como se fosse um véu de um aposento suntuoso circundando seu colchão sustentado por caixas; um sofá de plástico marrom, onde ela senta-se para conversar com seus fantasmas, enfeita a sala virtual; caixas de madeira guardam roupas, sapatos, utensílios de higiene pessoal, panelas, copos, latas com água, cuidadosamente arrumados, indiferentes ao caos humano ao redor.
Como todo mistério, a vida da Condessa transformou-se numa lenda, quando a fantasia e a realidade estão interligadas por um fio muito frágil. Mas o relato que se segue talvez seja o que mais se aproxima da verdade.
Conta-se que a Condessa desembarcou no porto do Rio de Janeiro há cerca de 20 anos a pleno verão quando até as pedras suavam ao calor do escaldante sol do meio-dia trazendo, apenas, uma pequena bagagem de mão, depois de dois meses de travessia em um navio mercante de bandeira italiana, procedente de Nápoles.
Abandonada e vagando sem rumo no desconhecido sentiu, naquele momento, profunda e triste solidão.
Não demorou para que elegantes proxenetas de plantão da Praça Mauá, com seu inglês barato e sedutor, a abordassem com suas promessas e oferecimentos de amores sabidamente impossíveis. Sem entender o que diziam e carente em sua solidão, não foi difícil para que um deles a conquistasse. Daí para o Mangue, o caminhar noturno pelas ruas do porto e a morada coberta pelo viaduto, foi um passo.
Em seus devaneios noturnos na intimidade de sua morada, cercada pelas luzes tênues das lâmpadas dos postes e pelos pobres néons que teimam em piscar, descompassadamente, diversas nuances de cores, surgem os ricos salões de baile, de sua bela Viena, ricamente iluminados por majestosos lustres de cristais. Os sons dos violinos executando as mais lindas valsas e o rodar alegre e sensual dos pares em volta do salão deixam-na atordoada.
Filha de camponeses migrou do interior para Viena aos 18 anos com a intenção de tornar-se advogada, sonho alimentado enquanto ajudava seus pais na dura tarefa de cultivar o campo. A ainda tímida menina do interior deslumbrava-se com a grandiosidade e riqueza da capital, sonhando em conquistar os locais mais nobres freqüentados pela sociedade vienense. E isso não seria difícil uma vez que sua beleza não passava despercebida aos olhos cobiçosos dos homens.
À medida que o tempo passava a tímida menina transformava-se numa mulher falante, alegre e, principalmente, ambiciosa que encantava a todos que a conheciam. Seu desejo veemente de alcançar riqueza e posição social era a sua maior arma de sedução. E foi com essa poderosa arma que conquistou uma das maiores fortunas de Viena, influente empresário com acesso irrestrito aos mais poderosos governantes, membro da mais fina sociedade vienense, a quem todos, respeitosamente, chamavam de Conde.
Viúvo e disputado pelas mais nobres beldades de Viena, não tanto por sua beleza e jovialidade, já que era um tanto gordo e disforme para os padrões de sonho feminino e na metade dos 50 anos, além do que despertava certo mal-estar pelo suor constante de seu rosto (características insignificantes para quem possui contas bancárias polpudas!), apaixonou-se perdidamente pela jovem camponesa ao encontrá-la num café às margens do Danúbio. Não precisou de muito esforço para conquistar aquela menina sedutora, 30 anos mais nova.
Casaram-se, acontecimento que agitou Viena, não só pela sua grandiosidade mas, também, pela inveja mal disfarçada da mais nobre sociedade vienense. Mas a beleza, charme e elegância da plebéia transformaram-na, imediatamente, na Condessa.
Passaram-se os anos e a Condessa, cercada por jóias e luxo, freqüentando elegantes bailes e recepções, mal conseguia disfarçar sua melancolia, escondida atrás de uma radiante e falsa simpatia. Sentia que sua alma estava vazia e que só poderia ser preenchida por um grande amor, talvez, impossível. Os anos passados ao lado do Conde tinham se transformados em suplício.
Numa daquelas belas tardes luminosas de Viena, quando passeava as margens do Danúbio contemplando sua beleza, nos seus raros momentos de verdadeira felicidade ouviu, ao passar defronte um famoso café, o som mavioso de um violino. Atraída pela bela música aproximou-se e, ao entrar no salão, deparou com um belo e jovem violinista, que fez seu coração disparar ao ritmo da melodia. Seus olhares se encontraram e transmitiram a mútua e instantânea paixão que acabava de nascer.
Passou a freqüentar o café diariamente e não demorou para que o inevitável acontecesse. Ela, madura nos seus 30 anos e ele, crescendo nos seus 17, viveram uma intensa e forte paixão que não passou despercebida pela sociedade. E nem pelo Conde.
Não foi por acaso, portanto, que aquela manhã chuvosa de sexta-feira surgiu triste e opressora, com o céu cinzento e sem vida, mas insuficiente para abalar a felicidade da Condessa. Como fazia quase que diariamente, foi encontrar-se com seu jovem violinista naquele aconchegante apartamento, cúmplice de seus amores desvairados. Repousavam, à meia-luz, depois do amor intenso que acabaram de viver, quando a porta abriu-se e foram cobertos por uma enorme sombra gorda. Sem tempo de reagir, o jovem violinista foi atingido mortalmente por três disparos. Horrorizada, a Condessa reconheceu aquele vulto e, num gesto patético, tentou ocultar sua nudez. O Conde, com os olhos injetados pelo ódio, amor e incompreensão, virou-se para a Condessa, apontou sua arma e atirou. Ouviu-se o forte estrondo de um corpo caindo pesadamente no chão. Ao ver o corpo inerte e sangrando de sua jovem paixão ao seu lado e o pesado corpo daquele que, durante anos satisfez a sua ambição e, agora, jazia no chão com o crânio perfurado, a Condessa desmaiou.
A morte do violinista e o suicídio do Conde abalaram Viena. Três dias após a tragédia a Condessa despertou de seu estado de choque. Aterrorizada, compreendeu o ato do Conde ao deixá-la viva: o castigo de carregar para sempre a culpa pela tragédia.
Execrada pela hipocrisia da sociedade vienense envolvida em amores escusos, a Condessa abandonou Viena. Passou a vagar pela Europa, vendendo seu corpo e sua alma para sobreviver, até que chegou ao porto de Nápoles e embarcou, a troco de cama ao comandante, no navio que a trouxe ao Rio de Janeiro, aonde chegou a pleno verão quando até as pedras suavam ao calor do escaldante sol do meio-dia trazendo, apenas, uma pequena bagagem de mão. Estava, mais uma vez, diante de uma nova e dura realidade do sabor amargo da vida.
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Observava a passagem alegre das pessoas pela calçada do Boteco quando, de repente, fui envolvido pelo som mavioso de um violino. Como que hipnotizado pela melodia triste que saía de suas cordas fui levado pelo som que me conduziu até os aposentos da Condessa. Nesse momento a música parou e deparei-me com o corpo da Condessa que jazia inerte no colchão circundado por seu véu imaginário. Seus olhos estavam abertos e um sorriso de felicidade iluminava seu rosto que agora, mostrava-se, inexplicavelmente, jovial. Por alguns segundos que pareceram uma eternidade fixei meu olhar naquela face que nunca mais esqueci. Coloquei minha mão em seu rosto, fechei seus olhos e, então, finalmente, entendi.

Benjamin
Maio de 2008



domingo, 23 de março de 2008

O FEITIÇO DA DEUSA NEGRA

- Boa noite, Antenor.
- Boa noite – respondeu Antenor enquanto servia-me uma dose de Salto do Meio.
Sentou-se à minha mesa e, nostalgicamente, lembrou-se da Edite
- A bailarina? – lembrei-me. Bons tempos, aqueles...
- Nem me fale - suspirou Antenor

O ano de 1958 foi um marco na vida da boêmia carioca. Foi o nascimento de Edite na noite da Lapa. Quando fez sua estréia no Cabaré Apolo, como bailarina de uma companhia de revistas, com apenas dezoito anos de idade, os boêmios de plantão e os assíduos grã-finos do Apolo viram naquela negra esguia, de corpo escultural, seios fartos e firmes, nádegas salientes, pernas torneadas com cuidado milimétrico, linda, lábios brilhantes, olhos de jabuticaba, e de extrema sensualidade, a figura perfeita de uma deusa. Uma deusa surgida não se sabe de onde, mas, provavelmente, do paraíso, pois estava ali iluminando o ambiente com sua incomensurável beleza. Não demorou para que ficasse conhecida como a Deusa Negra.

A fama de Edite rapidamente espalhou-se pela cidade e o Cabaré foi invadido por gente de toda espécie: juízes, desembargadores, funcionários públicos, gerentes de bancos, almofadinhas desocupados, políticos, cardeais disfarçados em trajes civis, exemplares chefes de família defensores da moral e dos bons costumes, condes italianos de nobreza discutível, poetas que exaltavam sua beleza em poemas intermináveis. Rapidamente, Edite passou a ser a vedete da companhia de revista sem deixar, naturalmente, de causar ciúmes em suas colegas e, principalmente, naquela que foi destronada. Os cartazes luminosos estampavam seu nome em letras garrafais. Ingressos eram disputados a tapa. A loucura tomava conta da cidade.

Foram noites memoráveis. Edite era disputadíssima. Os freqüentadores não hesitavam em gastar pequenas fortunas em champanhes franceses e pagar qualquer preço para tê-la em seus braços, nem que fosse por apenas alguns minutos, em intermináveis suspiros de desejo e paixão. A Deusa Negra enfeitiçava aqueles homens, sem nenhuma compaixão, deixando-os enlouquecidos. Famílias eram desfeitas da noite para o dia. Os jornais estampavam notícias de suicídios na cidade, como nunca se viu antes. Homens jovens, de meia-idade, velhos, enfeitiçados pela beleza da Deusa Negra, e não tendo o amor correspondido, acabavam com a vida. A cidade vivia uma epidemia de suicídios.

Porém, poucos anos foram suficientes para seu reinado começar a desmoronar. Noites intermináveis de orgia, bebida e drogas, foram transformando o corpo e o rosto de Edite. Com apenas 25 anos, sua beleza começou a esvaecer-se. Seus admiradores passaram a evitá-la, o dinheiro sumia, a bela negra estava deixando de ser deusa e já não enfeitiçava ninguém.

Da Lapa para os cabarés de quinta categoria dos subúrbios cariocas e, dali, para os infectos e mal cheirosos inferninhos do cais do porto, freqüentado pela pior escória do submundo carioca e por prostitutas ordinárias, foi um passo. Protegendo esses inferninhos havia sempre uma imagem iluminada de Santo Agostinho, um homem apaixonado que viveu em concubinato e de Santa Maria Egipcíaca, uma prostituta que se converteu ao catolicismo.
A indiferença após suas apresentações cambaleantes era o triste espetáculo que a vida havia reservado para Edite. Ninguém percebia sua presença. Ninguém a via. Não havia aplausos. Não havia vaias. Apenas indiferença. Dormia nos fundos do cabaré, em cima apenas de um colchão, onde, todas as noites, garotos companheiros de infortúnio invadiam seu quarto, sorrateiramente, para satisfazerem-se.

Mas, uma vez por mês, Edite fantasiava seus dias de Deusa Negra, a Feiticeira, quando acontecia a Festa dos Excluídos, na Lapa. Em seus devaneios, como hipnotizada, transformava seu mocó embaixo de um viaduto no Centro, no camarim luxuoso do Cabaré Apolo, onde o espelho quebrado parecia estar rodeado de lâmpadas que iluminavam sua beleza, os aromas do perfume francês e de rosas vermelhas enviadas pelos fãs invadiam o ambiente. Seu copo de cachaça transformava-se em um longo cálice de champanhe francês. Ao vestir sua blusa de mangas compridas enfeitada com fitas de diferentes cores, que apertavam seus seios murchos, e sua mini-saia, de cor vermelho desbotado, auxiliada por imaginárias damas de companhia, sentia-se como se estivesse com suas ricas vestimentas prateadas que cegavam os homens quando a luz refletia. Ao colocar sua bota marrom três-quartos, era como se estivesse calçando seus ricos sapatos de salto agulha. Sua manta pobre transformava-se numa rica estola de vison.

Ao sair de seu imaginário camarim luxuoso, Edite caminhava lentamente em direção ao palco entre bêbados, drogados e loucos, como se estivesse sendo cortejada pelos grã-finos de outrora. “Ouvia” galanteios entre o silêncio mortal de sua passagem. Ao subir ao palco “via” as luzes refletidas em sua direção e seus fãs que gritavam por seu nome. Requebrava descompassadamente ao som de um bolero ou samba-canção saindo um 78 gasto pelo tempo. Em sua vertigem, transformava-se na Deusa Negra que não existia mais.

Na sua última apresentação, ao deixar o palco, Edite foi em direção a mais profunda escuridão da noite, onde desapareceu para sempre. Tinha 45 anos. Nunca mais se ouviu falar de Edite, a Feiticeira, a Deusa Negra, transformada em Bailarina de Rua!

Benjamin












segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A SOLIDÃO DE MARILYN

Noite triste de segunda-feira. A lua, coberta por nuvens, teima em sair, mas algo mais forte impede que ilumine essa noite opressiva, carregada.
Sinto uma angústia como há muito não sentia. A Lapa está vazia, sem vida, a tristeza toma conta dos bares e esquinas, a música não ecoa. As luzes não iluminam, a escuridão é tipicamente londrina do século XIX.
Antenor traz uma dose de Boazinha que imediatamente elimino.
Alemão chega com sua caixa de trabalho, posiciona-se e coloco meu pé para que meu sapato seja trabalhado.
- Você já soube? – pergunta Alemão, sem tirar os olhos do sapato.
- Soube do quê?
- A Marilyn foi encontrada morta.
Um arrepio percorreu toda minha espinha, meu coração acelerou e minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia levar à boca a segunda dose que o Antenor trouxe.
Marilyn! Tinha orgulho do nome. Era seu nome de guerra, pois era incrivelmente parecida com a Marilyn Monroe. Bonita, cabelos louros quase brancos, olhos vivos e maliciosos, lábios carnudos e vermelhos, sorriso tentador e uma charmosa pinta preta no lado esquerdo do rosto.
Apareceu na Lapa há pouco mais de um ano vindo de Belém. Tinha apenas 22 anos, abandonada aos cinco e, na “vida”, há dez. Sempre só. Sempre triste.
Ao chegar aqui conheceu Ronald que a acolheu e ofereceu a ela algo que nunca teve: esperança. Esperança de amor, esperança de carinho, esperança de vida.
Morava no quarto de um hotel ordinário na Lapa, para onde levava seus fregueses. Uma cama velha com a cabeceira feita de arcos de ferro enferrujados e colchão comido pelas traças; criado-mudo sem gaveta e um abajur vermelho com pingentes dourados; guarda-roupa sem porta, duas prateleiras e quatro cabides para pendurar o pouco que tinha; assoalho de madeira corroído pelos cupins; janela com vidro quebrado e veneziana verde com grandes espaços por onde entrava a luz da manhã; penteadeira com espelho gasto e quebrado, onde depositava seus materiais de embelezamento.
Foi encontrada sobre a cama, de mini-saia prateada, meias de seda e sapatos altos. No pescoço um colar de pedras brilhantes vagabundas, semelhante à caneleira. Sobre o criado-mudo, uma garrafa de conhaque quase vazia, copo virado, restos de cigarros de maconha e a luz tênue do abajur vermelho.
O braço esquerdo pendia para fora da cama e, no pulso esquerdo, sangue coagulado, escorrido na mão e chegando ao chão, onde as baratas brigavam por mais alimento. Seu rosto mostrava dois riscos negros saindo dos olhos, as marcas de sua enorme tristeza.
Na mão direita, manchado com sangue, um bilhete escrito a lápis e com “mal traçadas linhas”: “Merili mi discupe mais não dá mais fui imbora com a Norma seu de sempre Ronald”.
“Merili”! Nem ao menos sabia o seu nome certo!
Marlene e Daisy, suas duas únicas amigas, providenciaram o velório no Cemitério São João Batista. Simples, pago pela prefeitura. Caixão preto de madeira podre, com pano roxo circundando as laterais, ladeado por apenas dois castiçais com velas. Um único ramalhete de flores, comprado pelas amigas, enfeitava o caixão. Nenhuma coroa onde estivesse escrito “Saudade”. Além das duas amigas, ninguém mais para velar o corpo. Foi preciso pedir ajuda às pessoas de um velório vizinho para colocar o caixão sobre o carrinho que a levou à sua moradia definitiva: a gaveta 532.
Agora, Marilyn estava na mais absoluta e verdadeira solidão: a solidão de Marilyn. Acima das datas de nascimento e morte na tampa da gaveta, escrito no cimento ainda mole, o seu nome: Agenor Faustino!

Benjamin

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O RETORNO AO PARAÍSO

No dia seguinte ao fantástico reencontro como sempre, fui ao Boteco. Levei o guardanapo de papel autografado por todos que participaram do reencontro. Estava curioso para ver a reação do Antenor e do Eulídio sobre a noite anterior e mostrar o guardanapo para eles. Eles, certamente, deveriam estar tão extasiados e excitados quanto eu.

Entrei e, excitado com tudo que aconteceu, fui cumprimentando os dois com uma euforia incomum. Eles olharam pra mim e fizeram, apenas, um “oi!” como se nada tivesse acontecido. Eu insisti e perguntei “Tá tudo bem?”, “Tá, por quê?” o Antenor respondeu e olhou um pouco assustado para o Eulídio como se perguntasse “O que será que deu nele?”.

O Antenor trouxe uma dose de Germana e eu comentei com ele “Que noite a de ontem, não?”. “Como assim?”, ele respondeu perguntando. Eu disse “Como, como assim? Não aconteceu nada de excepcional ontem aqui?”. “Ué, que eu me lembre, não”, respondeu, “o Alemão engraxou seus sapatos e você ficou o tempo todo conversando com a Odete”. “Tem certeza?”, eu insisti. “Claro que tenho, ôôô! Porra, o que tá acontecendo com você?”, perguntou Antenor, já impaciente. “Nada, não é nada, não. Desculpe”, respondi.

Fiquei encafifado. Olhei pro guardanapo com os autógrafos e não me conformava. “Meu Deus, será que tô ficando louco? Alguma coisa aconteceu. Como é que esse guardanapo foi parar lá em casa?” Virei o copinho com a Germana e pedi logo mais duas doses.

Fiquei olhando pro guardanapo e comecei a imaginar como teria sido o retorno deles para o Paraíso depois daquele reencontro fantástico e iluminado.

Imagino que aconteceu mais ou menos assim:

Estão todos felizes, cantando, contando piadas até que chegam em frente à Porta do Paraíso que está trancada o que não é comum, a não ser que alguma coisa muito séria tenha acontecido.

Vinícius, que carregava um litro de uísque cheio, bateu na porta e ninguém respondeu. Insistiu por várias vezes até que a porta começou a abrir lentamente, as dobradiças rangendo e, quando finalmente abriu-se totalmente, lá estava Ele, com sua túnica branca, barba e cabelos brancos, com um triângulo atrás de sua cabeça para diferenciar do círculo que os santos têm, de mãos na cintura, olhando fixo para todos: DEUS.

“Isso são horas? Onde os senhores estavam? Quem deu ordem para os senhores saírem?” perguntou Deus com sua voz estrondosa que ecoou por todo Universo e fez todos tremerem de medo.

Ninguém tinha coragem de falar. Estavam todos paralisados e mudos de medo. Até que Vinícius, o responsável pela organização da ida do grupo à Lapa, tentou falar: “Senhor, nós...”, sendo, imediatamente, interrompido por Deus que gritou “Senhor coisíssima nenhuma. Você ainda tem coragem de dirigir a palavra a Mim e, ainda, com esse bafo de uísque? E essa garrafa que você está carregando o que é? Pode ir devolvendo, aqui, na Minha mão”, batendo com o dedo na mão enquanto falava. Vinícius devolveu e, quando Deus viu que era um litro de uísque, não se conteve. “Você pretendia entrar no Paraíso com esse litro de uísque? Você está querendo corromper o meu rebanho?”, berrava Deus, tanto que seus berros eram ouvidos além do Universo, seja lá o que isso signifique.

O Anjo da Guarda do Vinícius tentou falar com Deus para explicar o que tinha acontecido. Mas aí é que tudo piorou, pois ele falava com aquela voz característica de quem está bêbado. Não só ele, mas todos os Anjos da Guardo dos outros também estavam bêbados. Aí Deus não agüentou e Ele gritava “Meu Deus, onde nós estamos?” Ele estava tão bravo e estupefato com o que estava acontecendo que não percebeu que estava invocando a Ele mesmo. “Meu Deus”, repetiu, “Anjos da Guarda bê-ba-dos???!!!”.

Tom adiantou-se para explicar que eles eram os culpados pelos Anjos da Guarda estarem bêbados “Pois”, disse ele, “como o Senhor sabe é costume, no Brasil, todas as vezes que tomamos um trago oferecer o primeiro gole pro santo. Nesse caso, como os Anjos da Guarda é que estavam nos acompanhando, todos os goles foram pra eles. E olha que não foram poucos...” deu uma risadinha meio de lado. “Tá rindo do quê?” perguntou Deus.

Atrás de Deus, assistindo a tudo e se divertindo com a situação, estavam o Ismael Silva, Lamartine Babo, Cyro Monteiro, Adoniran Barbosa, Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, Garoto, Dalva de Oliveira, João Nogueira, Baden Powel, Braguinha, Francisco Alves, Carmem Miranda, Chiquinha Gonzaga, Elis Regina, Gonzaguinha, Gonzagão, Tim Maia e muitos outros amigos do pessoal.

“Isso não pode passar impune”, determinou Deus, “vocês têm que pagar por tanta indisciplina”. E começou a distribuir os “castigos”..

“Tom, Pixinguinha e Cartola, irão ajudar o Noé na construção das arcas. Com esse problema de aquecimento global que Eu, infelizmente, não estou conseguindo controlar, a possibilidade de outro dilúvio não está descartada”.

Os três ficaram desolados, pois sabiam que não era uma tarefa fácil e conheciam muito bem o gênio do Noé. Era difícil trabalhar com ele.

“Ataulfo, Mário e Lupicínio vão ajudar Pedro nas pescarias”, Deus falou.

Pedro era muito bom, mas era um trabalhador compulsivo. Saía para pescar, desembarcava os peixes, imediatamente voltava para o Mar Celestial, enchia o barco de peixes, e assim ia o tempo todo, sem parar. Ataulfo, Mário e Lupicínio tremeram na base.

“Noel , Ary e Herivelto vão cuidar da limpeza do Jardim do Éden”, determinou Deus.

Noel deu um sorrisinho e pensou “Oba, a Eva...”. Deus que sabe tudo e que lê os pensamentos imediatamente falou Ppode tirar o cavalinho da chuva, ‘seu’ Noel, não vai ter Eva nenhuma. E Eu quero ver aquele Jardim limpo e as maçãs brilhando. E se alguém se atrever a dar nem que seja um única pequena mordida numa maçã, vai pagar pelo resto da Eternidade, pois não estou a fim de começar tudo de novo, ENTENDERAM???”.

“Dolores e os Anjos da Guarda vão limpar todas as nuvens do Parque Celestial que, como vocês sabem, não é nada pequeno”.

Vinícius pensou que estivesse livre e estava saindo de fininho quando Deus decretou: “E o senhor, ‘seu’ Vinícius, com experiência de embaixador na sua outra vida, irá voltar a Terra para um trabalho importantíssimo. O senhor irá para a Venezuela convencer o Hugo Chavez de que os Estados Unidos são um país fantástico. Ele deverá fazer um discurso para o povo venezuelano, em rede internacional, dizendo que ama os americanos, especialmente o Bush, e que irá fundar o Partido Republicano da Venezuela nos mesmos moldes do americano. Eu não agüento mais a delegação celestial americana buzinando no meu ouvido que Eu preciso acabar com a fanfarronice do Chavez”.

Ao ouvir isso Vinícius ficou branco. “Senhor, essa é uma missão impossível. Por favor, não faça isso comigo. Mande-me para o Iraque, ou, então, para o Oriente Médio para mediar a paz entre judeus e árabes. Mande-me para o Quênia para acabar com a guerra civil. Tudo, menos convencer o Chavez a dizer que ama os americanos e o Bush”, suplicava Vinícius.

Mas Deus foi irredutível. São João, vendo o desespero do Vinícius e dos outros pelos “castigos” impostos por Deus, pediu que ele maneirasse um pouco. “Você está louco? Você quer que Eu fique desmoralizado? Já não basta o que dizem aqui que Eu sou brasileiro? Na última reunião do Conselho Celestial Maior, a delegação celestial argentina protocolou um protesto contra Mim alegando que Eu era brasileiro. Respondi a eles que era uma calúnia, que Eu sou Universal e que eles não têm do que reclamar. Lembrei a eles que num jogo de Copa do Mundo, Maradona fez um gol com a mão e os próprios argentinos ficaram dizendo para os quatro ventos que foi a mão de Deus. E, então, perguntei a eles, vocês ainda acham que sou brasileiro? Eles ficaram quietos, mas não retiraram o protesto. Você sabe como são esses argentinos”, respondeu Deus. “E”, continuou, “você sabe que eu tenho o coração mole e logo, logo, vou livrá-los dos ‘castigos’”.

Enfim, Deus pediu para que todos entrassem já que estavam atrapalhando a enorme fila de pessoas que pretendiam entrar no céu e Ele ainda precisava fazer a triagem.

Ao entrarem, o pessoal que estava assistindo a discussão tirou o maior sarro. O Cyro não parava de rir. O Ismael chegou próximo ao Ataulfo e disse, baixinho, “Pô, por que você não me convidou pra ir junto?” A Dalva deu o maior safanão no Herivelto. A Aracy deu uma porrada no Noel que o baixinho quase desmorona.

Deus olhou para eles e, na Sua infinita bondade e misericórdia, deu um sorrisinho e disse para Si mesmo: “Esses meninos levados...Adoro os brasileiros!”.

Ouvi alguém me chamando e “despertei” de meus pensamentos. Eram a Olívia e o Altair que estavam chegando para o acerto de contas de suas meninas. Sentaram-se à minha mesa, pediram uma cerveja, batemos um longo papo e fui embora dormir. Feliz.

Benjamin

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Para uma amiga que sofre

ARIDEZ

Não ..... há ..... água..... que.... dê .... conta
de ..... alimentar..... este..... solo.
Sem ..... nada..... reter,
os..... grãos.... de ..... areia ..... do ..... cerrado
vão ..... deixando..... a..... água.... ir..... embora,
sem..... que..... nenhum..... proveito..... dela.... se..... tire.
E..... a vida,.... que..... no..... solo ..... do..... cerrado..... prolifera,
é..... bizarra, ..... seca,..... retorcida..... ou..... rasteira.

Alguns..... são ..... assim:
areia..... do..... cerrado,
que ..... não..... conseguem..... reter, ..... do afeto,
nem ..... uma.... leve..... lembrança.

Gabi

Pode parecer meio delirante...

CONSTELAÇÃO DO HOMEM VELHO (MITO GUARANI)

Na escuridão da noite de lua nova
O verão úmido precipita.
Acima das nuvens, bem ao lado da Via Láctea
O Homem Velho chora sobre a floresta

A perna arrancada, a estrela que lhe falta,
reclama presença e dói como membro fantasma.


Em cada gota que cai
Reflete-se uma tênue imagem minha:

Dor fantasma das coisas que já perdi!

Gabi

PASSADO

PASSADO

Sou um ser nostálgico.
Nostálgico de que, não sei.
Sempre me vem essa sensação
De saudade de algo que...
Não vivi? Ou se vivi, não lembro.
Sinto saudade do que esqueci?
Mas, se esqueci, do que posso ter saudade?
Não sei! Se esqueci, não vivi.
Mas, então... e essa nostalgia...?
Saudade do que não lembro?
Saudade do que nem sei se esqueci?
Saudade do que não vivi?
Não sei!

Gabi