segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A SOLIDÃO DE MARILYN

Noite triste de segunda-feira. A lua, coberta por nuvens, teima em sair, mas algo mais forte impede que ilumine essa noite opressiva, carregada.
Sinto uma angústia como há muito não sentia. A Lapa está vazia, sem vida, a tristeza toma conta dos bares e esquinas, a música não ecoa. As luzes não iluminam, a escuridão é tipicamente londrina do século XIX.
Antenor traz uma dose de Boazinha que imediatamente elimino.
Alemão chega com sua caixa de trabalho, posiciona-se e coloco meu pé para que meu sapato seja trabalhado.
- Você já soube? – pergunta Alemão, sem tirar os olhos do sapato.
- Soube do quê?
- A Marilyn foi encontrada morta.
Um arrepio percorreu toda minha espinha, meu coração acelerou e minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia levar à boca a segunda dose que o Antenor trouxe.
Marilyn! Tinha orgulho do nome. Era seu nome de guerra, pois era incrivelmente parecida com a Marilyn Monroe. Bonita, cabelos louros quase brancos, olhos vivos e maliciosos, lábios carnudos e vermelhos, sorriso tentador e uma charmosa pinta preta no lado esquerdo do rosto.
Apareceu na Lapa há pouco mais de um ano vindo de Belém. Tinha apenas 22 anos, abandonada aos cinco e, na “vida”, há dez. Sempre só. Sempre triste.
Ao chegar aqui conheceu Ronald que a acolheu e ofereceu a ela algo que nunca teve: esperança. Esperança de amor, esperança de carinho, esperança de vida.
Morava no quarto de um hotel ordinário na Lapa, para onde levava seus fregueses. Uma cama velha com a cabeceira feita de arcos de ferro enferrujados e colchão comido pelas traças; criado-mudo sem gaveta e um abajur vermelho com pingentes dourados; guarda-roupa sem porta, duas prateleiras e quatro cabides para pendurar o pouco que tinha; assoalho de madeira corroído pelos cupins; janela com vidro quebrado e veneziana verde com grandes espaços por onde entrava a luz da manhã; penteadeira com espelho gasto e quebrado, onde depositava seus materiais de embelezamento.
Foi encontrada sobre a cama, de mini-saia prateada, meias de seda e sapatos altos. No pescoço um colar de pedras brilhantes vagabundas, semelhante à caneleira. Sobre o criado-mudo, uma garrafa de conhaque quase vazia, copo virado, restos de cigarros de maconha e a luz tênue do abajur vermelho.
O braço esquerdo pendia para fora da cama e, no pulso esquerdo, sangue coagulado, escorrido na mão e chegando ao chão, onde as baratas brigavam por mais alimento. Seu rosto mostrava dois riscos negros saindo dos olhos, as marcas de sua enorme tristeza.
Na mão direita, manchado com sangue, um bilhete escrito a lápis e com “mal traçadas linhas”: “Merili mi discupe mais não dá mais fui imbora com a Norma seu de sempre Ronald”.
“Merili”! Nem ao menos sabia o seu nome certo!
Marlene e Daisy, suas duas únicas amigas, providenciaram o velório no Cemitério São João Batista. Simples, pago pela prefeitura. Caixão preto de madeira podre, com pano roxo circundando as laterais, ladeado por apenas dois castiçais com velas. Um único ramalhete de flores, comprado pelas amigas, enfeitava o caixão. Nenhuma coroa onde estivesse escrito “Saudade”. Além das duas amigas, ninguém mais para velar o corpo. Foi preciso pedir ajuda às pessoas de um velório vizinho para colocar o caixão sobre o carrinho que a levou à sua moradia definitiva: a gaveta 532.
Agora, Marilyn estava na mais absoluta e verdadeira solidão: a solidão de Marilyn. Acima das datas de nascimento e morte na tampa da gaveta, escrito no cimento ainda mole, o seu nome: Agenor Faustino!

Benjamin

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O RETORNO AO PARAÍSO

No dia seguinte ao fantástico reencontro como sempre, fui ao Boteco. Levei o guardanapo de papel autografado por todos que participaram do reencontro. Estava curioso para ver a reação do Antenor e do Eulídio sobre a noite anterior e mostrar o guardanapo para eles. Eles, certamente, deveriam estar tão extasiados e excitados quanto eu.

Entrei e, excitado com tudo que aconteceu, fui cumprimentando os dois com uma euforia incomum. Eles olharam pra mim e fizeram, apenas, um “oi!” como se nada tivesse acontecido. Eu insisti e perguntei “Tá tudo bem?”, “Tá, por quê?” o Antenor respondeu e olhou um pouco assustado para o Eulídio como se perguntasse “O que será que deu nele?”.

O Antenor trouxe uma dose de Germana e eu comentei com ele “Que noite a de ontem, não?”. “Como assim?”, ele respondeu perguntando. Eu disse “Como, como assim? Não aconteceu nada de excepcional ontem aqui?”. “Ué, que eu me lembre, não”, respondeu, “o Alemão engraxou seus sapatos e você ficou o tempo todo conversando com a Odete”. “Tem certeza?”, eu insisti. “Claro que tenho, ôôô! Porra, o que tá acontecendo com você?”, perguntou Antenor, já impaciente. “Nada, não é nada, não. Desculpe”, respondi.

Fiquei encafifado. Olhei pro guardanapo com os autógrafos e não me conformava. “Meu Deus, será que tô ficando louco? Alguma coisa aconteceu. Como é que esse guardanapo foi parar lá em casa?” Virei o copinho com a Germana e pedi logo mais duas doses.

Fiquei olhando pro guardanapo e comecei a imaginar como teria sido o retorno deles para o Paraíso depois daquele reencontro fantástico e iluminado.

Imagino que aconteceu mais ou menos assim:

Estão todos felizes, cantando, contando piadas até que chegam em frente à Porta do Paraíso que está trancada o que não é comum, a não ser que alguma coisa muito séria tenha acontecido.

Vinícius, que carregava um litro de uísque cheio, bateu na porta e ninguém respondeu. Insistiu por várias vezes até que a porta começou a abrir lentamente, as dobradiças rangendo e, quando finalmente abriu-se totalmente, lá estava Ele, com sua túnica branca, barba e cabelos brancos, com um triângulo atrás de sua cabeça para diferenciar do círculo que os santos têm, de mãos na cintura, olhando fixo para todos: DEUS.

“Isso são horas? Onde os senhores estavam? Quem deu ordem para os senhores saírem?” perguntou Deus com sua voz estrondosa que ecoou por todo Universo e fez todos tremerem de medo.

Ninguém tinha coragem de falar. Estavam todos paralisados e mudos de medo. Até que Vinícius, o responsável pela organização da ida do grupo à Lapa, tentou falar: “Senhor, nós...”, sendo, imediatamente, interrompido por Deus que gritou “Senhor coisíssima nenhuma. Você ainda tem coragem de dirigir a palavra a Mim e, ainda, com esse bafo de uísque? E essa garrafa que você está carregando o que é? Pode ir devolvendo, aqui, na Minha mão”, batendo com o dedo na mão enquanto falava. Vinícius devolveu e, quando Deus viu que era um litro de uísque, não se conteve. “Você pretendia entrar no Paraíso com esse litro de uísque? Você está querendo corromper o meu rebanho?”, berrava Deus, tanto que seus berros eram ouvidos além do Universo, seja lá o que isso signifique.

O Anjo da Guarda do Vinícius tentou falar com Deus para explicar o que tinha acontecido. Mas aí é que tudo piorou, pois ele falava com aquela voz característica de quem está bêbado. Não só ele, mas todos os Anjos da Guardo dos outros também estavam bêbados. Aí Deus não agüentou e Ele gritava “Meu Deus, onde nós estamos?” Ele estava tão bravo e estupefato com o que estava acontecendo que não percebeu que estava invocando a Ele mesmo. “Meu Deus”, repetiu, “Anjos da Guarda bê-ba-dos???!!!”.

Tom adiantou-se para explicar que eles eram os culpados pelos Anjos da Guarda estarem bêbados “Pois”, disse ele, “como o Senhor sabe é costume, no Brasil, todas as vezes que tomamos um trago oferecer o primeiro gole pro santo. Nesse caso, como os Anjos da Guarda é que estavam nos acompanhando, todos os goles foram pra eles. E olha que não foram poucos...” deu uma risadinha meio de lado. “Tá rindo do quê?” perguntou Deus.

Atrás de Deus, assistindo a tudo e se divertindo com a situação, estavam o Ismael Silva, Lamartine Babo, Cyro Monteiro, Adoniran Barbosa, Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, Garoto, Dalva de Oliveira, João Nogueira, Baden Powel, Braguinha, Francisco Alves, Carmem Miranda, Chiquinha Gonzaga, Elis Regina, Gonzaguinha, Gonzagão, Tim Maia e muitos outros amigos do pessoal.

“Isso não pode passar impune”, determinou Deus, “vocês têm que pagar por tanta indisciplina”. E começou a distribuir os “castigos”..

“Tom, Pixinguinha e Cartola, irão ajudar o Noé na construção das arcas. Com esse problema de aquecimento global que Eu, infelizmente, não estou conseguindo controlar, a possibilidade de outro dilúvio não está descartada”.

Os três ficaram desolados, pois sabiam que não era uma tarefa fácil e conheciam muito bem o gênio do Noé. Era difícil trabalhar com ele.

“Ataulfo, Mário e Lupicínio vão ajudar Pedro nas pescarias”, Deus falou.

Pedro era muito bom, mas era um trabalhador compulsivo. Saía para pescar, desembarcava os peixes, imediatamente voltava para o Mar Celestial, enchia o barco de peixes, e assim ia o tempo todo, sem parar. Ataulfo, Mário e Lupicínio tremeram na base.

“Noel , Ary e Herivelto vão cuidar da limpeza do Jardim do Éden”, determinou Deus.

Noel deu um sorrisinho e pensou “Oba, a Eva...”. Deus que sabe tudo e que lê os pensamentos imediatamente falou Ppode tirar o cavalinho da chuva, ‘seu’ Noel, não vai ter Eva nenhuma. E Eu quero ver aquele Jardim limpo e as maçãs brilhando. E se alguém se atrever a dar nem que seja um única pequena mordida numa maçã, vai pagar pelo resto da Eternidade, pois não estou a fim de começar tudo de novo, ENTENDERAM???”.

“Dolores e os Anjos da Guarda vão limpar todas as nuvens do Parque Celestial que, como vocês sabem, não é nada pequeno”.

Vinícius pensou que estivesse livre e estava saindo de fininho quando Deus decretou: “E o senhor, ‘seu’ Vinícius, com experiência de embaixador na sua outra vida, irá voltar a Terra para um trabalho importantíssimo. O senhor irá para a Venezuela convencer o Hugo Chavez de que os Estados Unidos são um país fantástico. Ele deverá fazer um discurso para o povo venezuelano, em rede internacional, dizendo que ama os americanos, especialmente o Bush, e que irá fundar o Partido Republicano da Venezuela nos mesmos moldes do americano. Eu não agüento mais a delegação celestial americana buzinando no meu ouvido que Eu preciso acabar com a fanfarronice do Chavez”.

Ao ouvir isso Vinícius ficou branco. “Senhor, essa é uma missão impossível. Por favor, não faça isso comigo. Mande-me para o Iraque, ou, então, para o Oriente Médio para mediar a paz entre judeus e árabes. Mande-me para o Quênia para acabar com a guerra civil. Tudo, menos convencer o Chavez a dizer que ama os americanos e o Bush”, suplicava Vinícius.

Mas Deus foi irredutível. São João, vendo o desespero do Vinícius e dos outros pelos “castigos” impostos por Deus, pediu que ele maneirasse um pouco. “Você está louco? Você quer que Eu fique desmoralizado? Já não basta o que dizem aqui que Eu sou brasileiro? Na última reunião do Conselho Celestial Maior, a delegação celestial argentina protocolou um protesto contra Mim alegando que Eu era brasileiro. Respondi a eles que era uma calúnia, que Eu sou Universal e que eles não têm do que reclamar. Lembrei a eles que num jogo de Copa do Mundo, Maradona fez um gol com a mão e os próprios argentinos ficaram dizendo para os quatro ventos que foi a mão de Deus. E, então, perguntei a eles, vocês ainda acham que sou brasileiro? Eles ficaram quietos, mas não retiraram o protesto. Você sabe como são esses argentinos”, respondeu Deus. “E”, continuou, “você sabe que eu tenho o coração mole e logo, logo, vou livrá-los dos ‘castigos’”.

Enfim, Deus pediu para que todos entrassem já que estavam atrapalhando a enorme fila de pessoas que pretendiam entrar no céu e Ele ainda precisava fazer a triagem.

Ao entrarem, o pessoal que estava assistindo a discussão tirou o maior sarro. O Cyro não parava de rir. O Ismael chegou próximo ao Ataulfo e disse, baixinho, “Pô, por que você não me convidou pra ir junto?” A Dalva deu o maior safanão no Herivelto. A Aracy deu uma porrada no Noel que o baixinho quase desmorona.

Deus olhou para eles e, na Sua infinita bondade e misericórdia, deu um sorrisinho e disse para Si mesmo: “Esses meninos levados...Adoro os brasileiros!”.

Ouvi alguém me chamando e “despertei” de meus pensamentos. Eram a Olívia e o Altair que estavam chegando para o acerto de contas de suas meninas. Sentaram-se à minha mesa, pediram uma cerveja, batemos um longo papo e fui embora dormir. Feliz.

Benjamin

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Para uma amiga que sofre

ARIDEZ

Não ..... há ..... água..... que.... dê .... conta
de ..... alimentar..... este..... solo.
Sem ..... nada..... reter,
os..... grãos.... de ..... areia ..... do ..... cerrado
vão ..... deixando..... a..... água.... ir..... embora,
sem..... que..... nenhum..... proveito..... dela.... se..... tire.
E..... a vida,.... que..... no..... solo ..... do..... cerrado..... prolifera,
é..... bizarra, ..... seca,..... retorcida..... ou..... rasteira.

Alguns..... são ..... assim:
areia..... do..... cerrado,
que ..... não..... conseguem..... reter, ..... do afeto,
nem ..... uma.... leve..... lembrança.

Gabi

Pode parecer meio delirante...

CONSTELAÇÃO DO HOMEM VELHO (MITO GUARANI)

Na escuridão da noite de lua nova
O verão úmido precipita.
Acima das nuvens, bem ao lado da Via Láctea
O Homem Velho chora sobre a floresta

A perna arrancada, a estrela que lhe falta,
reclama presença e dói como membro fantasma.


Em cada gota que cai
Reflete-se uma tênue imagem minha:

Dor fantasma das coisas que já perdi!

Gabi

PASSADO

PASSADO

Sou um ser nostálgico.
Nostálgico de que, não sei.
Sempre me vem essa sensação
De saudade de algo que...
Não vivi? Ou se vivi, não lembro.
Sinto saudade do que esqueci?
Mas, se esqueci, do que posso ter saudade?
Não sei! Se esqueci, não vivi.
Mas, então... e essa nostalgia...?
Saudade do que não lembro?
Saudade do que nem sei se esqueci?
Saudade do que não vivi?
Não sei!

Gabi

PAIXÃO

PAIXÃO

Cimento...,
Barro cozido...,
Massa de modelar?
Não! Nem imagem holográfica.

Só ilusão de ótica!


Gabi

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O FANTÁSTICO REENCONTRO


Estava indo ao Boteco quando uma claridade chamou-me a atenção. Era uma luz forte, concentrada em apenas um ponto do agitado centro da Lapa. À medida que me aproximava identifiquei que esse ponto iluminado era o Boteco. Raios de luz saiam pela porta e janelas. A sensação de prazer e leveza tomou conta de meu corpo e de minha mente. Nunca havia sentido isso antes. Caminhava em direção aos raios de luz como se não tivesse absolutamente nada e ninguém à minha frente. Estava completamente hipnotizado pela beleza daquela luz. Parece que só eu percebia o que estava acontecendo, pois, em determinado momento, num átimo de segundo, percebi que as pessoas que por ali passavam não se davam conta de que algo diferente estava ocorrendo. Caminhavam em câmera lenta e o burburinho era típico de um disco 78 rpm sendo tocado em 33 rpm, com as vozes pastosas e difíceis de serem entendidas.

Ao entrar no Boteco fiquei cego por alguns segundos devido à intensidade de luz que havia no local. Não só pela intensidade, mas, também, pelos raios de luz que produziam um efeito indescritível. Ao recobrar a visão achei a minha mesa, sentei-me e tive a mais fantástica visão que alguém poderia ter. Fiquei confuso, pois ao mesmo tempo em que não acreditava no que via, tinha a certeza de que estava diante do mais fantástico reencontro.

À minha frente, sentados ao redor das mesas colocadas em fileira, estavam Tom Jobim, Pixinguinha, Noel Rosas, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago, Ary Barroso, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins. Havia uma cadeira vazia e em frente, sobre a mesa, um litro de uísque e um copo com gelo: era o lugar do Vinícius de Moraes.

Quando Vinícius chegou, foi uma festa. Sentou-se encheu o copo com uísque e brindou a cada um dos presentes.

“Sua bênção Tom, amigo e parceiro de todas as horas”.
“Sua bênção Pixinguinha, meu mestre e grande maestro”.
“Sua bênção Ataulfo das Pastoras e inspirador das mulatas assanhadas”.
“Sua bênção Noel, grande boêmio da Vila”.
“Sua bênção Cartola, mangueirense de fé”.
“Sua bênção Mário, meu poeta querido”.
“Sua bênção Ary, brasileiro e flamenguista”.
“Sua bênção Dolores, deusa do samba-canção”.
“Sua bênção Lupicínio e sua eterna dor-de-cotovelo”.
“Sua bênção Herivelto, que levou a Ave Maria ao morro”.

Ao que todos responderam, levantando seus copos: “Saravá, meu irmão”.

Era uma reunião alegre e a conversa entre eles não podia ser outra: mulher, paixão, amor.

Tom ao ver uma linda morena passando em frente ao Boteco: “Vocês viram? Olhem que morena mais linda, mais cheia de graça!”

Pixinguinha: “É linda sim, lembra-me a Rosa que era divina e graciosa, estátua majestosa do amor, que por Deus foi esculturada e formada com ardor.

Vinícius: “Quando vejo uma morena como essa, lembro-me do meu lamento, daquela que não quis saber de mim. Ela não tinha pena e não ouvia o meu lamento. Tentei em vão esquece-la e o meu tormento era tanto que eu vivia em pranto de tão infeliz”.

Ataulfo: “Atire a primeira pedra quem não sofreu por amor...Tive grandes paixões. Eu sempre dizia que quando morresse, não sabia o dia, levaria saudade da Maria e, também, não sabia a hora, mas levaria saudade da Aurora”.

Mário: “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia. Aquilo sim é que era mulher, não Ataulfo? Lembra dela? Ela não tinha a menor vaidade, ela era mulher de verdade”.

Ataulfo: “Ah, que mulher...”

Ary: “Nunca me esqueço do dia em que encontrei a morena mais frajola da Bahia na Baixa do Sapateiro. Pedi um beijo, ela negou; pedi um abraço, ela sorriu; e, quando pedi a mão, ela não quis dar e fugiu. Nunca me esqueci dela”.

Herivelto: “Todos sabem que o grande amor da minha vida foi a Dalva. Lembro-me da nossa primeira noite de amor. Dei de presente a ela uma camisola. Era a camisola do dia, linda, muito linda, parecia um céu azul de organdi, tão transparente e macia. Que noite!”

Tom: “Lembra-se da Luiza, Vinícius? Que paixão! Quando eu estava com ela eu ficava louco, o desejo dela era sempre o meu desejo, pedia sua boca louca para me dar um beijo, dizia ‘ me dá tua mão, me exorciza’”.

Vinícius: “Como esquecer? Você perguntava se ela queria ser sua namorada, a mais linda namorada, ser somente sua, essa coisa toda sua que ninguém poderia ser, mas ela sempre recusava o seu amor”.

Dolores: “Eu acho o amor, apesar de maravilhoso, muito triste. A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer, que não faz mal se tudo terminar. Aí, um belo dia a gente entende que ficou sozinha”.

Lupicínio: “A Dolores tem razão. Vocês sabem muito bem o que é ter um amor, ter loucura por uma mulher e depois encontrar esse amor nos braços de um outro qualquer!”
Cartola: “Nada consigo fazer quando a saudade aperta, foge-me a inspiração, sinto a alma deserta e um vazio se faz em meu peito”.

Mário: “É! Se o amor só nos causa sofrimento e dor, é melhor, bem melhor, a ilusão do amor”.

Ary: “Eu sempre me apaixonei ao primeiro olhar. Lembro-me de uma mulher que apareceu aqui mesmo, na Lapa. Apaixonei-me na hora. Mas, no dia em que ela apareceu, juntou uma porção de vagabundo da orgia. De noite, teve samba e batucada, que acabou de madrugada em grossa pancadaria. De repente ela sumiu com um cabo de polícia e eu nunca mais a vi”.

Noel: “Eu me desiludi tanto que com mulher não quero mais nada. O que me faz ficar doente é mulher na minha frente a fazer enredos de amor. Lembram-se da Ceci? É um amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João. Morreu sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar e sem violão”.

Cartola: “Mas quando o amor volta, bate com esperança o meu coração”.

Tom: “Olha, pessoal, chega de saudade. A realidade é que sem o amor não há paz, não há beleza e é só tristeza e melancolia. Além disso, é de manhã, olhem o sol, e os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar. A reunião foi ótima, recordamos nossos amores, mas é hora de voltarmos, senão o Homem vai ficar uma fera”.

Pixinguinha: “Vamos, sim, mas vamos nos encontrar outra vez. Vocês concordam?

Todos: “Sim, sem dúvida”.

Herivelto (suspirando): “Enquanto a cidade dorme, a Lapa fica acordada, acalentando quem vive de madrugada. Até a volta, Lapa querida”.

Todos se levantaram e foram em direção à saída. Levantei-me rapidamente para vê-los mais uma vez. A única coisa que consegui ver foi um rasto de luz em direção ao infinito.

Acordei e olhei para o relógio que marcava 9 horas. Foi o sonho mais belo que tive em toda a minha vida. Levantei-me e fui à cozinha para fazer o café, ainda hipnotizado pelo sonho

Mas, qual não foi a minha surpresa quando vi, em cima da mesa da cozinha, um guardanapo com as assinaturas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Pixinguinha, Noel Rosas, Mário Lago, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Cartola e Herivelto Martins.

Sentei-me e chorei.

Benjamin