Estava indo ao Boteco quando uma claridade chamou-me a atenção. Era uma luz forte, concentrada em apenas um ponto do agitado centro da Lapa. À medida que me aproximava identifiquei que esse ponto iluminado era o Boteco. Raios de luz saiam pela porta e janelas. A sensação de prazer e leveza tomou conta de meu corpo e de minha mente. Nunca havia sentido isso antes. Caminhava em direção aos raios de luz como se não tivesse absolutamente nada e ninguém à minha frente. Estava completamente hipnotizado pela beleza daquela luz. Parece que só eu percebia o que estava acontecendo, pois, em determinado momento, num átimo de segundo, percebi que as pessoas que por ali passavam não se davam conta de que algo diferente estava ocorrendo. Caminhavam em câmera lenta e o burburinho era típico de um disco 78 rpm sendo tocado em 33 rpm, com as vozes pastosas e difíceis de serem entendidas.
Ao entrar no Boteco fiquei cego por alguns segundos devido à intensidade de luz que havia no local. Não só pela intensidade, mas, também, pelos raios de luz que produziam um efeito indescritível. Ao recobrar a visão achei a minha mesa, sentei-me e tive a mais fantástica visão que alguém poderia ter. Fiquei confuso, pois ao mesmo tempo em que não acreditava no que via, tinha a certeza de que estava diante do mais fantástico reencontro.
À minha frente, sentados ao redor das mesas colocadas em fileira, estavam Tom Jobim, Pixinguinha, Noel Rosas, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago, Ary Barroso, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins. Havia uma cadeira vazia e em frente, sobre a mesa, um litro de uísque e um copo com gelo: era o lugar do Vinícius de Moraes.
Quando Vinícius chegou, foi uma festa. Sentou-se encheu o copo com uísque e brindou a cada um dos presentes.
“Sua bênção Tom, amigo e parceiro de todas as horas”.
“Sua bênção Pixinguinha, meu mestre e grande maestro”.
“Sua bênção Ataulfo das Pastoras e inspirador das mulatas assanhadas”.
“Sua bênção Noel, grande boêmio da Vila”.
“Sua bênção Cartola, mangueirense de fé”.
“Sua bênção Mário, meu poeta querido”.
“Sua bênção Ary, brasileiro e flamenguista”.
“Sua bênção Dolores, deusa do samba-canção”.
“Sua bênção Lupicínio e sua eterna dor-de-cotovelo”.
“Sua bênção Herivelto, que levou a Ave Maria ao morro”.
Ao que todos responderam, levantando seus copos: “Saravá, meu irmão”.
Era uma reunião alegre e a conversa entre eles não podia ser outra: mulher, paixão, amor.
Tom ao ver uma linda morena passando em frente ao Boteco: “Vocês viram? Olhem que morena mais linda, mais cheia de graça!”
Pixinguinha: “É linda sim, lembra-me a Rosa que era divina e graciosa, estátua majestosa do amor, que por Deus foi esculturada e formada com ardor.
Vinícius: “Quando vejo uma morena como essa, lembro-me do meu lamento, daquela que não quis saber de mim. Ela não tinha pena e não ouvia o meu lamento. Tentei em vão esquece-la e o meu tormento era tanto que eu vivia em pranto de tão infeliz”.
Ataulfo: “Atire a primeira pedra quem não sofreu por amor...Tive grandes paixões. Eu sempre dizia que quando morresse, não sabia o dia, levaria saudade da Maria e, também, não sabia a hora, mas levaria saudade da Aurora”.
Mário: “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia. Aquilo sim é que era mulher, não Ataulfo? Lembra dela? Ela não tinha a menor vaidade, ela era mulher de verdade”.
Ataulfo: “Ah, que mulher...”
Ary: “Nunca me esqueço do dia em que encontrei a morena mais frajola da Bahia na Baixa do Sapateiro. Pedi um beijo, ela negou; pedi um abraço, ela sorriu; e, quando pedi a mão, ela não quis dar e fugiu. Nunca me esqueci dela”.
Herivelto: “Todos sabem que o grande amor da minha vida foi a Dalva. Lembro-me da nossa primeira noite de amor. Dei de presente a ela uma camisola. Era a camisola do dia, linda, muito linda, parecia um céu azul de organdi, tão transparente e macia. Que noite!”
Tom: “Lembra-se da Luiza, Vinícius? Que paixão! Quando eu estava com ela eu ficava louco, o desejo dela era sempre o meu desejo, pedia sua boca louca para me dar um beijo, dizia ‘ me dá tua mão, me exorciza’”.
Vinícius: “Como esquecer? Você perguntava se ela queria ser sua namorada, a mais linda namorada, ser somente sua, essa coisa toda sua que ninguém poderia ser, mas ela sempre recusava o seu amor”.
Dolores: “Eu acho o amor, apesar de maravilhoso, muito triste. A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer, que não faz mal se tudo terminar. Aí, um belo dia a gente entende que ficou sozinha”.
Lupicínio: “A Dolores tem razão. Vocês sabem muito bem o que é ter um amor, ter loucura por uma mulher e depois encontrar esse amor nos braços de um outro qualquer!”
Cartola: “Nada consigo fazer quando a saudade aperta, foge-me a inspiração, sinto a alma deserta e um vazio se faz em meu peito”.
Mário: “É! Se o amor só nos causa sofrimento e dor, é melhor, bem melhor, a ilusão do amor”.
Ary: “Eu sempre me apaixonei ao primeiro olhar. Lembro-me de uma mulher que apareceu aqui mesmo, na Lapa. Apaixonei-me na hora. Mas, no dia em que ela apareceu, juntou uma porção de vagabundo da orgia. De noite, teve samba e batucada, que acabou de madrugada em grossa pancadaria. De repente ela sumiu com um cabo de polícia e eu nunca mais a vi”.
Noel: “Eu me desiludi tanto que com mulher não quero mais nada. O que me faz ficar doente é mulher na minha frente a fazer enredos de amor. Lembram-se da Ceci? É um amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João. Morreu sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar e sem violão”.
Cartola: “Mas quando o amor volta, bate com esperança o meu coração”.
Tom: “Olha, pessoal, chega de saudade. A realidade é que sem o amor não há paz, não há beleza e é só tristeza e melancolia. Além disso, é de manhã, olhem o sol, e os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar. A reunião foi ótima, recordamos nossos amores, mas é hora de voltarmos, senão o Homem vai ficar uma fera”.
Pixinguinha: “Vamos, sim, mas vamos nos encontrar outra vez. Vocês concordam?
Todos: “Sim, sem dúvida”.
Herivelto (suspirando): “Enquanto a cidade dorme, a Lapa fica acordada, acalentando quem vive de madrugada. Até a volta, Lapa querida”.
Todos se levantaram e foram em direção à saída. Levantei-me rapidamente para vê-los mais uma vez. A única coisa que consegui ver foi um rasto de luz em direção ao infinito.
Acordei e olhei para o relógio que marcava 9 horas. Foi o sonho mais belo que tive em toda a minha vida. Levantei-me e fui à cozinha para fazer o café, ainda hipnotizado pelo sonho
Mas, qual não foi a minha surpresa quando vi, em cima da mesa da cozinha, um guardanapo com as assinaturas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Pixinguinha, Noel Rosas, Mário Lago, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Cartola e Herivelto Martins.
Sentei-me e chorei.
Benjamin
Mário: “É! Se o amor só nos causa sofrimento e dor, é melhor, bem melhor, a ilusão do amor”.
Ary: “Eu sempre me apaixonei ao primeiro olhar. Lembro-me de uma mulher que apareceu aqui mesmo, na Lapa. Apaixonei-me na hora. Mas, no dia em que ela apareceu, juntou uma porção de vagabundo da orgia. De noite, teve samba e batucada, que acabou de madrugada em grossa pancadaria. De repente ela sumiu com um cabo de polícia e eu nunca mais a vi”.
Noel: “Eu me desiludi tanto que com mulher não quero mais nada. O que me faz ficar doente é mulher na minha frente a fazer enredos de amor. Lembram-se da Ceci? É um amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João. Morreu sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar e sem violão”.
Cartola: “Mas quando o amor volta, bate com esperança o meu coração”.
Tom: “Olha, pessoal, chega de saudade. A realidade é que sem o amor não há paz, não há beleza e é só tristeza e melancolia. Além disso, é de manhã, olhem o sol, e os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar. A reunião foi ótima, recordamos nossos amores, mas é hora de voltarmos, senão o Homem vai ficar uma fera”.
Pixinguinha: “Vamos, sim, mas vamos nos encontrar outra vez. Vocês concordam?
Todos: “Sim, sem dúvida”.
Herivelto (suspirando): “Enquanto a cidade dorme, a Lapa fica acordada, acalentando quem vive de madrugada. Até a volta, Lapa querida”.
Todos se levantaram e foram em direção à saída. Levantei-me rapidamente para vê-los mais uma vez. A única coisa que consegui ver foi um rasto de luz em direção ao infinito.
Acordei e olhei para o relógio que marcava 9 horas. Foi o sonho mais belo que tive em toda a minha vida. Levantei-me e fui à cozinha para fazer o café, ainda hipnotizado pelo sonho
Mas, qual não foi a minha surpresa quando vi, em cima da mesa da cozinha, um guardanapo com as assinaturas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Pixinguinha, Noel Rosas, Mário Lago, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Cartola e Herivelto Martins.
Sentei-me e chorei.
Benjamin
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