sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

EULÍDIO

Eulídio é o bom português dono do Boteco. Quase não conversa com ninguém, sempre atarefado atrás do balcão atendendo os fregueses. Mas, atrás desse mutismo, está uma pessoa extremamente comunicativa, por mais paradoxal que isso possa parecer. Basta olhar para os seus olhos, que “falam” por ele.

Às vezes, quando o movimento cai, principalmente ao final da noite, ele senta-se à minha mesa e, se não for para falar do Vasco, é sempre para recordar seus momentos de infância na sua cidadezinha em Portugal.

Eulídio está com 66 anos, sendo 50 de Brasil. Como todo imigrante, passou por dificuldades, mas, como a colônia portuguesa é muito grande e unida, principalmente no Rio, todos se ajudam. Logo ao chegar, conseguiu um emprego de faz-tudo num bar da Lapa, cujo proprietário era um patrício. Como tinha 16 anos, trabalhava só até às 8 da noite. Como todo bom português, tudo que ele ganhava, guardava. Só gastava uns trocadinhos para assistir aos jogos do Vasco aos domingos. Pois, foi com essas economias que, 10 anos depois ele conseguiu comprar o bar onde trabalhava e que hoje é o Boteco. Há 40 anos que Eulídio está atrás do balcão. E com a mesma simpatia de sempre.

Nessa segunda-feira, dia de pouco movimento, Eulídio, mais uma vez, falou-me de sua infância e da cidadezinha de onde veio.

Eulídio nasceu na freguesia de Freixo de Numão, pertencente ao Concelho de Vila Nova de Foz Côa, no extremo norte do Distrito da Guarda, Região de Trás-os-Montes e Alto- Douro. A sede do Concelho e maior município é Vila Nova de Foz Côa, e Freixo de Numão fica próximo de Vila Nova.

O Concelho de Vila Nova de Foz Côa pela grande densidade de amendoeiras em toda a sua área, reivindica, há muitos anos, o título de “Capital da Amendoeira”. É uma região muito bonita, principalmente quando começa a floração da amendoeira. Além dessa característica, o Concelho, como parte da cultura portuguesa, produz vinhos e azeites de qualidade.

Eulídio vai a Portugal todos os anos e não deixa, nunca, de visitar sua “querida terrinha” como ele fala. Freixo de Numão tem, hoje, uma população de 586 habitantes. É um povoado pequeno, como a grande maioria das freguesias de Portugal. E, por ser São Pedro o padroeiro do povoado, hoje transformado em vila, Eulídio é fervoroso devoto do santo.

Ele recorda, com água nos olhos, do seu tempo de criança, dos seus seis irmãos, quatro homens e duas mulheres. Ele era o quinto. Sua família, muito pobre, trabalhava com artefatos de madeira e latoaria, como a grande maioria da população. Colhiam amêndoas para os grandes produtores, que vendiam seus produtos em Vila Nova de Foz Côa no Largo do Tablado e na Feira de São Miguel, onde funcionava a “Bolsa da Amêndoa”. Gostava de ir lá com seu pai e seus quatro irmãos mais velhos para entregar as amêndoas.

Ele não se esquece da casa onde nasceu, na Rua das Lages, próxima da Capela Roqueira de Santa Bárbara, onde não só ele, mas toda a sua família foi batizada. E é com tristeza que, sempre que vai a Freixo, vê que, no lugar da sua casa, hoje tem um prediozinho todo colorido, junto com outros, que acabaram desfigurando uma das zonas mais bonitas do povoado.

Mas, nunca deixa de visitar o Pelourinho, a Casa Grande, a Casa da Justiça, a Casa do Lavrador Abastado, as Fontes da Rica e da Carvalha, o Tanque do Sapo, a Janela Manuelina, e outras riquezas do patrimônio arquitetônico.

Todos esses lugares trazem recordações que fazem dele uma criança. Como na primeira vez que levou a Manuela na Casa Grande e lá, escondidos atrás da casa, sentiram pela primeira vez, os prazeres de um abraço, de um beijo, da excitação. Descreve como foi o prazer de ter tocado pela primeira vez nos seios da Manuela e quanto ela gostou disso e retribuiu o prazer.

Eulídio é assim. Uma pessoa cheia de recordações, feliz com seu trabalho, feliz com a vida, com os filhos e netos, vascaíno roxo, um português orgulhoso de sua origem e feliz por ser brasileiro.

Ah, sim! E louco por uma mulata. E uma ginginha.
Benjamin

ANTÔNIO

Antônio é um rapaz de classe alta da zona sul carioca, universitário, inteligente, bom papo, simpático, bonito, conquistador. Vai com bastante freqüência à Lapa e, sempre passa no Boteco para conversarmos.

Gosto muito de conversar com ele. Conversamos sobre tudo: política, mulheres, futebol, sobre o curso de veterinária que está terminando, sobre o futuro, literatura, música.

Mas, Antônio é um dos milhares de sua classe social que financiam o tráfico de drogas no Rio, juntamente com aqueles de menor poder aquisitivo que precisam roubar para ajudar no financiamento.

Antônio é um consumidor de maconha e cocaína. Daqueles que dizem que não é viciado e que a droga é apenas um derivativo para aliviar o estresse. Que pode largar no momento em que quiser. Ouço há anos ele contar a mesma história.

E quando eu digo que ele financia o tráfico, acabamos sempre discutindo duro. Ele sempre diz que o problema não é dele e, sim, do Estado que tem a obrigação de acabar com o tráfico. E eu sempre digo que o problema é de todos e que enquanto tiver consumidor que financie o traficante, o Estado, sozinho, fica impotente.

Ele sempre fica bravo comigo quando toco nesse assunto.
Benjamin

O QUE PUXA A CANOA


Cheguei ao Boteco, como sempre, ao anoitecer. Quando entro, deparo-me com uma figura muito estranha sentada à minha mesa. Era um homem alto, de coloração acinzentada, desengonçado na maneira de sentar. Assustei-me e quase saio correndo, quando uma voz meio cavernosa disse “Por favor, não fuja, fique e converse comigo”.

Ainda assustado, sentei-me a seu lado e, quando toquei em seu braço frio percebi a dureza com que era constituído. Parecia pedra. E, o que é pior, era pedra. Granito, para ser mais exato.

“Mas, afinal, quem é você?”, perguntei um pouco titubeante.

“Sou O Que Puxa A Canoa”, respondeu com uma voz fria e assustadora.

“’O que puxa a canoa’????” “Como assim? Que canoa? Como é o seu nome?”. Eu estava atônito!

“Eu não tenho nome. Sou conhecido, apenas, como O Que Puxa A Canoa. Você conhece o Monumento às Bandeiras que fica no Parque Ibirapuera, em São Paulo? Pois é, eu sou o negão que fica do lado direito, todo torto, que está puxando a canoa das monções. Estou lá, na mesma posição, desde 1953, portanto há 54 anos, tentando puxar aquela maldita canoa que não sai do lugar nem com a ajuda do O Que Empurra A Canoa, meu amigo que fica por último e que tenta empurrar a canoa, que, por sinal, também é negão, e que fica o dia inteiro gritando pra mim ‘puxa essa merda, puxa essa merda, porra!’. Todas as descrições sobre o Monumento às Bandeiras dizem que a canoa está sendo puxada pelos negros, mamelucos e índios. Conversa fiada. Observe uma foto com cuidado e você verá que estão todos em pé, puxando porra nenhuma de canoa, e que somente eu e o Empurra é que estamos tentando fazer com que aquela merda de canoa vá pra algum lugar. Os bandeirantes – aqueles que a história conta como desbravadores e heróis, mas que não passavam de uns filhos da puta interessados apenas nas riquezas minerais e nos índios para escravizar, eliminando aqueles que os desafiavam – estão lá, esbeltos, em seus cavalos, enquanto o resto vai a pé e os negões, aqui, puxando a canoa. Fico chateado com tudo isso, pois o Brecheret poderia ter tido um pouco mais de consideração com a gente. Acho que ele foi sacana. Mas, enfim...”

“Pera aí! Você está me dizendo que é um dos personagens do Monumento às Bandeiras?!?!?!?!”

“Sou. Mas, afinal, por que todo esse espanto?”

“Como assim ‘por que todo esse espanto’?! Você pensa que é todos os dias que eu converso com uma estátua? Mesmo nos meus maiores dias de porre isso nunca aconteceu!”. Bem, esta última frase, confesso que não disse com muita convicção...

“Tá desculpe, eu entendo”.

“Mas, afinal, o que você está fazendo aqui e como chegou até aqui?” Eu fazia as perguntas, mas não acreditava que estava conversando com uma estátua. Enfim, fiz o jogo do ‘relaxa e goza’, muito utilizado por uma ministra que pratica sempre que se encontra em situações incômodas.

“Como eu cheguei até aqui é uma coisa muito complicada de explicar. Não vale a pena perder tanto tempo com isso. Mas o que eu vim fazer aqui, já é outra conversa. Primeiro, estava cansado de ficar na mesma posição por 54 anos e precisava esticar este velho corpo. E você não imagina como isso foi difícil. As juntas todas fudidas de anos sem movimentação. Foi difícil colocar tudo no lugar. Depois, sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. E, como eu mantinha correspondência com uma estátua daqui, conhecida como Índia, que fica no Largo da Penha, que, diga-se de passagem, é um tesão de estátua – ela me mandou fotos -, marquei encontro com ela aqui na Lapa, hoje. Além disso, não sou de ferro! 54 anos na maior secura!”

“Você mantinha correspondência com uma estátua?!?!?!? Co-rres-pon-dên-cia com uma estátua!!!!???? Mas, como?” Perguntei, já na minha sexta dose de cachaça.

“Olha, isso não tem muita importância e como é uma coisa muito difícil de explicar e você não vai entender mesmo, deixa pra lá. O importante é que nos iremos encontrar aqui hoje”.

Nesse momento, quando olho para a porta do Boteco, vejo uma linda índia, extremamente sensual, corpo escultural (perdoem-me o jogo de palavra, mais foi sem querer), com seios maravilhosos, um pouco cinza para o meu gosto, mas, vá lá, isso é apenas um pequeno detalhe diante da maravilha que estava à minha frente.

Imediatamente, O Que Puxa A Canoa levantou-se e ele e Índia saíram para o encontro esperado há anos. Lembro-me, um pouco depois, de ter sentido o Boteco tremer e de ter ouvido uns barulhos muito parecidos com rochas caindo umas sobre as outras.

Claro que não acreditei com o que tinha acontecido. Certamente, foi conseqüência das cachaças em excesso. Mas, mesmo assim, fiquei encafifado.

Não tive dúvida. No dia seguinte peguei a ponte aérea, desembarquei em Congonhas e pedi ao motorista de táxi que me levasse até o Parque do Ibirapuera. Ao chegar lá fui direto ver o Monumento às Bandeiras e imediatamente identifiquei O Que Puxa A Canoa. Ele me reconheceu e, com um sorriso nos lábios, deu uma piscadela pra mim.

Juro! É a pura verdade!

Quando vocês passarem pelo Ibirapuera e estiverem indo em direção a Avenida Brasil, dêem uma olhadela para o Monumento e vocês verão que ao menos um daqueles personagens apresenta um ar de felicidade.
Benjamin






quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

POLÍTICO

Político é apaixonado por política, daí seu apelido. Candidatou-se uma vez para vereador por um partido pequeno e obteve apenas um voto que, acredito, tenha sido o dele.

Aparece com freqüência no Boteco e é um dos grandes companheiros de cachaça e prosa.

Sempre preocupado com as questões político-sociais, fundou o PES, Partido dos Excluídos Sociais, cuja sede é na Lapa e o “escritório” é no Boteco, onde com Povunido, um dos poucos dirigentes, discute as diretrizes do partido.

O PES atende, exclusivamente, aqueles que, como o próprio nome diz, estão excluídos da sociedade.

Os sem-nomes, os sem-teto, os sem-esperança, os sem-vida, os sem-direitos, os sem-proteção, os sem-aniversário, os sem-Natal, os sem-presentes, os sem-panetone, os sem-Ano Novo, os sem-ceia, os sem-Páscoa, os sem-chocolate, os sem-carnaval, os sem-fantasia (literalmente!), os sem-lápide.

Político também é um deles. Ele é um sem-voz, pois poucos o ouvem.
Benjamin

POVUNIDO


Quando cheguei ao Boteco, Povunido já estava à minha mesa. Ele sempre aparece pra contar as novidades do mundo comunista.

Marxista convicto, daqueles de saber de cor a biografia de Marx, conhece O Capital de trás pra frente. Já deve ter lido O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels umas trezentas vezes.

Comunista de família. O avô participou da Guerra Espanhola contra o fascismo de Franco e o pai, militante comunista na revolução de 64, foi preso, torturado e morto. Sangue vermelho, mesmo.

Ninguém sabe o nome de batismo do Povunido, que sempre foi conhecido como O Povo Unido e acabou virando Povunido. Como ele sempre acha que alguém o está vigiando, ele argumenta que não revela o nome verdadeiro por medo da “repressão”, seja lá o que isso signifique nos dias de hoje. Povunido virou Povunido de tantas passeatas que fez e, ainda, faz, sempre gritando a mais famosa palavra de ordem da esquerda “o povo unido, jamais será vencido”.

É uma figura folclórica na Lapa. Não há quem não o conheça. Também, não tem dia em que ele não faça panfletagem. Ele é proprietário, editor, cronista e distribuidor do jornal semanal O Mundo Esquerdista. Todas as noites, após o expediente numa empresa multinacional – sim, porque comunista também precisa comer, venha o dinheiro de multinacional ou não, já que saiu da moda comer criancinhas! - ele está na Lapa distribuindo o seu jornal. Às vezes, sobe em cima de um engradado de cerveja e fica pregando sua ideologia. E seus discursos quase sempre giram em torno da exploração das multinacionais, do combate à privatização, e coisas desse tipo. Discursos que ninguém agüenta mais ouvir. Aliás, ninguém ouve, mesmo, diga-se de passagem!

Se você olhar pro Povunido você jura que ele é um coroinha. Se tem uma coisa que Povunido não faz é se fantasiar de comunista. Sabe, aquele tipo magro, com cavanhaque ou, mesmo, barba comprida, rabo-de-cavalo, óculos redondos (pode ser sem grau) pequenos de aros finos; jaqueta e calças surradas; tênis mais pra lá do que pra cá, além, claro, do indefectível boné estilo Mao. Povunido é o comunista menos estereotipado que conheço. É gordinho, baixinho, usa camisa por dentro da calça (com cinto), ambas sempre limpas, sapatos de couro, geralmente pretos, e meias brancas. Se um comunista russo, chinês ou seja lá de onde for, chegar ao Brasil e encontrar o Povunido, não vai acreditar que ele é um dos comunistas mais convictos do país.

É uma grande alma. Gosto muito de conversar com ele. Torcedor fanático do América do Rio, paixão surgida na infância quando viu, pela primeira vez, o time com a típica camisa vermelha. Aliás, diria que é torcedor fanático de todos os Américas do país, por causa da cor vermelha das camisas de todos os Américas. Com exceção do América mineiro, que a camisa é verde e preta.

Mas, às vezes, mostra-se o mais ingênuo dos mortais. Talvez pelo fato de não enxergar que existe vida além do mundo comunista, comete alguns absurdos que é de não acreditar. Um dia desse ele chegou ao Boteco com dois livros nas mãos, eufórico por ter pagado uma ninharia num sebo e que ele acreditava ser sobre comunismo, já que havia lido apenas os títulos. Um dos livros era o Meu nome é Vermelho, de Orhan Pamuk, e o outro O Vermelho e o Negro, do Ruy Castro.

Tive que explicar a ele que o livro de Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2006, apesar do título, não tinha nada de comunista e que se referia a um crime cometido em Istambul no século XVI, por um dos pintores miniaturistas contratados para iluminar um livro encomendado por um Sultão. E que o livro de Ruy Casto, O Vermelho e o Negro, não tinha nada a ver com a importantíssima participação do negro no comunismo, como ele imaginava, mas era, simplesmente, uma pequena grande história do Flamengo.

Fiquei com pena do Povunido. Acho, até, que não precisaria ter dito tudo isso a ele. Mas, pô, ele é meu amigo, eu respeito muito as convicções dele e não quero que ele vire motivo de chacota!

Mas, de qualquer maneira fui pra casa naquela noite com a nítida sensação de que não deveria ter contado sobre os livros. Tenho certeza que Povunido ficou magoado comigo.

Benjamin







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