Cheguei ao Boteco, como sempre, ao anoitecer. Quando entro, deparo-me com uma figura muito estranha sentada à minha mesa. Era um homem alto, de coloração acinzentada, desengonçado na maneira de sentar. Assustei-me e quase saio correndo, quando uma voz meio cavernosa disse “Por favor, não fuja, fique e converse comigo”.
Ainda assustado, sentei-me a seu lado e, quando toquei em seu braço frio percebi a dureza com que era constituído. Parecia pedra. E, o que é pior, era pedra. Granito, para ser mais exato.
“Mas, afinal, quem é você?”, perguntei um pouco titubeante.
“Sou O Que Puxa A Canoa”, respondeu com uma voz fria e assustadora.
“’O que puxa a canoa’????” “Como assim? Que canoa? Como é o seu nome?”. Eu estava atônito!
“Eu não tenho nome. Sou conhecido, apenas, como O Que Puxa A Canoa. Você conhece o Monumento às Bandeiras que fica no Parque Ibirapuera, em São Paulo? Pois é, eu sou o negão que fica do lado direito, todo torto, que está puxando a canoa das monções. Estou lá, na mesma posição, desde 1953, portanto há 54 anos, tentando puxar aquela maldita canoa que não sai do lugar nem com a ajuda do O Que Empurra A Canoa, meu amigo que fica por último e que tenta empurrar a canoa, que, por sinal, também é negão, e que fica o dia inteiro gritando pra mim ‘puxa essa merda, puxa essa merda, porra!’. Todas as descrições sobre o Monumento às Bandeiras dizem que a canoa está sendo puxada pelos negros, mamelucos e índios. Conversa fiada. Observe uma foto com cuidado e você verá que estão todos em pé, puxando porra nenhuma de canoa, e que somente eu e o Empurra é que estamos tentando fazer com que aquela merda de canoa vá pra algum lugar. Os bandeirantes – aqueles que a história conta como desbravadores e heróis, mas que não passavam de uns filhos da puta interessados apenas nas riquezas minerais e nos índios para escravizar, eliminando aqueles que os desafiavam – estão lá, esbeltos, em seus cavalos, enquanto o resto vai a pé e os negões, aqui, puxando a canoa. Fico chateado com tudo isso, pois o Brecheret poderia ter tido um pouco mais de consideração com a gente. Acho que ele foi sacana. Mas, enfim...”
“Pera aí! Você está me dizendo que é um dos personagens do Monumento às Bandeiras?!?!?!?!”
“Sou. Mas, afinal, por que todo esse espanto?”
“Como assim ‘por que todo esse espanto’?! Você pensa que é todos os dias que eu converso com uma estátua? Mesmo nos meus maiores dias de porre isso nunca aconteceu!”. Bem, esta última frase, confesso que não disse com muita convicção...
“Tá desculpe, eu entendo”.
“Mas, afinal, o que você está fazendo aqui e como chegou até aqui?” Eu fazia as perguntas, mas não acreditava que estava conversando com uma estátua. Enfim, fiz o jogo do ‘relaxa e goza’, muito utilizado por uma ministra que pratica sempre que se encontra em situações incômodas.
“Como eu cheguei até aqui é uma coisa muito complicada de explicar. Não vale a pena perder tanto tempo com isso. Mas o que eu vim fazer aqui, já é outra conversa. Primeiro, estava cansado de ficar na mesma posição por 54 anos e precisava esticar este velho corpo. E você não imagina como isso foi difícil. As juntas todas fudidas de anos sem movimentação. Foi difícil colocar tudo no lugar. Depois, sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. E, como eu mantinha correspondência com uma estátua daqui, conhecida como Índia, que fica no Largo da Penha, que, diga-se de passagem, é um tesão de estátua – ela me mandou fotos -, marquei encontro com ela aqui na Lapa, hoje. Além disso, não sou de ferro! 54 anos na maior secura!”
“Você mantinha correspondência com uma estátua?!?!?!? Co-rres-pon-dên-cia com uma estátua!!!!???? Mas, como?” Perguntei, já na minha sexta dose de cachaça.
“Olha, isso não tem muita importância e como é uma coisa muito difícil de explicar e você não vai entender mesmo, deixa pra lá. O importante é que nos iremos encontrar aqui hoje”.
Nesse momento, quando olho para a porta do Boteco, vejo uma linda índia, extremamente sensual, corpo escultural (perdoem-me o jogo de palavra, mais foi sem querer), com seios maravilhosos, um pouco cinza para o meu gosto, mas, vá lá, isso é apenas um pequeno detalhe diante da maravilha que estava à minha frente.
Imediatamente, O Que Puxa A Canoa levantou-se e ele e Índia saíram para o encontro esperado há anos. Lembro-me, um pouco depois, de ter sentido o Boteco tremer e de ter ouvido uns barulhos muito parecidos com rochas caindo umas sobre as outras.
Claro que não acreditei com o que tinha acontecido. Certamente, foi conseqüência das cachaças em excesso. Mas, mesmo assim, fiquei encafifado.
Não tive dúvida. No dia seguinte peguei a ponte aérea, desembarquei em Congonhas e pedi ao motorista de táxi que me levasse até o Parque do Ibirapuera. Ao chegar lá fui direto ver o Monumento às Bandeiras e imediatamente identifiquei O Que Puxa A Canoa. Ele me reconheceu e, com um sorriso nos lábios, deu uma piscadela pra mim.
Juro! É a pura verdade!
Quando vocês passarem pelo Ibirapuera e estiverem indo em direção a Avenida Brasil, dêem uma olhadela para o Monumento e vocês verão que ao menos um daqueles personagens apresenta um ar de felicidade.
Benjamin
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