Quando cheguei ao Boteco, Povunido já estava à minha mesa. Ele sempre aparece pra contar as novidades do mundo comunista.
Marxista convicto, daqueles de saber de cor a biografia de Marx, conhece O Capital de trás pra frente. Já deve ter lido O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels umas trezentas vezes.
Comunista de família. O avô participou da Guerra Espanhola contra o fascismo de Franco e o pai, militante comunista na revolução de 64, foi preso, torturado e morto. Sangue vermelho, mesmo.
Ninguém sabe o nome de batismo do Povunido, que sempre foi conhecido como O Povo Unido e acabou virando Povunido. Como ele sempre acha que alguém o está vigiando, ele argumenta que não revela o nome verdadeiro por medo da “repressão”, seja lá o que isso signifique nos dias de hoje. Povunido virou Povunido de tantas passeatas que fez e, ainda, faz, sempre gritando a mais famosa palavra de ordem da esquerda “o povo unido, jamais será vencido”.
É uma figura folclórica na Lapa. Não há quem não o conheça. Também, não tem dia em que ele não faça panfletagem. Ele é proprietário, editor, cronista e distribuidor do jornal semanal O Mundo Esquerdista. Todas as noites, após o expediente numa empresa multinacional – sim, porque comunista também precisa comer, venha o dinheiro de multinacional ou não, já que saiu da moda comer criancinhas! - ele está na Lapa distribuindo o seu jornal. Às vezes, sobe em cima de um engradado de cerveja e fica pregando sua ideologia. E seus discursos quase sempre giram em torno da exploração das multinacionais, do combate à privatização, e coisas desse tipo. Discursos que ninguém agüenta mais ouvir. Aliás, ninguém ouve, mesmo, diga-se de passagem!
Se você olhar pro Povunido você jura que ele é um coroinha. Se tem uma coisa que Povunido não faz é se fantasiar de comunista. Sabe, aquele tipo magro, com cavanhaque ou, mesmo, barba comprida, rabo-de-cavalo, óculos redondos (pode ser sem grau) pequenos de aros finos; jaqueta e calças surradas; tênis mais pra lá do que pra cá, além, claro, do indefectível boné estilo Mao. Povunido é o comunista menos estereotipado que conheço. É gordinho, baixinho, usa camisa por dentro da calça (com cinto), ambas sempre limpas, sapatos de couro, geralmente pretos, e meias brancas. Se um comunista russo, chinês ou seja lá de onde for, chegar ao Brasil e encontrar o Povunido, não vai acreditar que ele é um dos comunistas mais convictos do país.
É uma grande alma. Gosto muito de conversar com ele. Torcedor fanático do América do Rio, paixão surgida na infância quando viu, pela primeira vez, o time com a típica camisa vermelha. Aliás, diria que é torcedor fanático de todos os Américas do país, por causa da cor vermelha das camisas de todos os Américas. Com exceção do América mineiro, que a camisa é verde e preta.
Mas, às vezes, mostra-se o mais ingênuo dos mortais. Talvez pelo fato de não enxergar que existe vida além do mundo comunista, comete alguns absurdos que é de não acreditar. Um dia desse ele chegou ao Boteco com dois livros nas mãos, eufórico por ter pagado uma ninharia num sebo e que ele acreditava ser sobre comunismo, já que havia lido apenas os títulos. Um dos livros era o Meu nome é Vermelho, de Orhan Pamuk, e o outro O Vermelho e o Negro, do Ruy Castro.
Tive que explicar a ele que o livro de Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2006, apesar do título, não tinha nada de comunista e que se referia a um crime cometido em Istambul no século XVI, por um dos pintores miniaturistas contratados para iluminar um livro encomendado por um Sultão. E que o livro de Ruy Casto, O Vermelho e o Negro, não tinha nada a ver com a importantíssima participação do negro no comunismo, como ele imaginava, mas era, simplesmente, uma pequena grande história do Flamengo.
Fiquei com pena do Povunido. Acho, até, que não precisaria ter dito tudo isso a ele. Mas, pô, ele é meu amigo, eu respeito muito as convicções dele e não quero que ele vire motivo de chacota!
Mas, de qualquer maneira fui pra casa naquela noite com a nítida sensação de que não deveria ter contado sobre os livros. Tenho certeza que Povunido ficou magoado comigo.
Benjamin
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