Conheço Otília e Altair há 45 anos quando, pela primeira vez, visitei a Rua do Mangue, no centro da cidade, o local mais famoso e freqüentado do baixo meretrício carioca. Isso foi em 1962, se não estou enganado, ou, mesmo, antes. Dividem com freqüência a minha mesa no Boteco, quando conversamos sobre diversas coisas, principalmente, sobre os “bons tempos”. Tempos em que se podia andar pelas madrugadas cariocas sem medo.
A rua era muito movimentada e freqüentada por toda espécie de gente: marinheiros dos mais distantes pontos do mundo, gigolôs, malandros, turistas estrangeiros, curiosos, enfim, todo tipo de pessoa, a maioria com poucos trocados para passar alguns momentos de prazer.
Também se via muita gente da fina flor da sociedade carioca, não só homens mas, também, mulheres, além de políticos conhecidos, à busca de um prazer proibido. Mas, estes procuravam esconder-se atrás de seus chapéus, echarpes, ou seja lá o que for, para não serem reconhecidos. Não era sem motivo, já que por lá sempre circulavam repórteres fotográficos ávidos por publicar um escândalo. Morriam de pavor só de pensar em ver suas fotos estampadas na primeira página do Diário da Noite ou serem motivos de reportagem no O Cruzeiro.
Era um vai-e-vem constante pela rua ou nas calçadas, à escolha das mulheres que ficavam expostas nas janelas das casas, apoiadas por horas nos parapeitos. (Daí a famosa frase “tem até calo no cotovelo” para designar alguém que tem vasta experiência em alguma coisa). Ou, então, ficavam numa sala, aguardando os fregueses, num entra e sai que não acabava nunca. Afinal, numa atividade de alta rotatividade.
Otília era uma das mais belas e disputadas prostitutas do Mangue. Não havia quem não se apaixonasse, literalmente, por ela. Não só por sua beleza mulata, sensualidade e maneira como satisfazia seus fregueses, mas, também, pelo carinho com que tratava a todos e, muitas vezes, a todas. Quando a conheci ela tinha 18 anos e, desde então, nos tornamos muito amigos. Sempre que ia ao Mangue eu a procurava e, se ela estava ocupada, esperava o final do expediente quando, então, ficávamos conversando e tomando nossas cachaças e cervejas até o amanhecer, junto com o Altair, sua grande paixão, com quem, também, eu mantinha uma grande amizade.
Altair era marinheiro da marinha mercante brasileira e vivia circulando pelo mundo. Era um negro alto, bonito e vistoso e, por onde passava, chamava a atenção. Era extremamente simpático, tinha muitos amigos e reinava no Mangue, o que despertava um tremendo ciúme na Otília. Não foram poucas as brigas que eu presenciei entre a Otília e outras mulheres, para defender “seu homem”. E o Altair, malandro, ficava só olhando de longe, deliciando-se com aquela disputa. Mas, no final das contas, era para a Otília que ele sempre voltava.
Uma das maiores paixões de Altair era viajar e desembarcar nos portos do mundo todo. Com exceção da Oceania, conhecia muitos portos de diferentes países dos outros continentes. E, dizia ele, em cada porto que chegava, havia alguém a esperá-lo. Isso até parece frase feita, mas, em se tratando do Altair, não era pra duvidar. Mas, por sua vez, vivia contando os dias, horas e minutos para desembarcar no Rio e correr para os braços da Otília. “Insubstituível”, dizia ele.
Como todo malandro da época, ele gostava de se vestir a caráter: calça impecavelmente branca com vinco rigorosamente bem passado, camisa colorida de seda com mangas compridas, chapéu panamá, meias brancas, sapatos brancos com pequenos furos e detalhes em vermelho nas laterais e na parte de cima e, lenço branco de linho, fundamental para enxugar o suor das mãos. (Para ele, tocar numa mulher com as mãos suadas era de uma indelicadeza imperdoável). E, claro, a inseparável navalha em um dos bolsos. Sempre perfumado com os melhores perfumes franceses e os cabelos bem penteados e lustrosos com a melhor brilhantina.
Otília está com 73 anos e Altair, com 78. Estão casados no sentido de que estão juntos desde a época do Mangue. Hoje eles dirigem uma próspera empresa de Prestação de Serviços, na Lapa, sendo que o “escritório” deles fica no Boteco.
Eles têm, à sua disposição, um bom número de “meninas” que, diga-se de passagem, são muito bem tratadas. Elas têm assistência médica, odontológica e registro em carteira, obviamente não como “modelo e atriz” já que não são tão finas como estas, mas como secretárias, recepcionistas, auxiliares de enfermagem. Têm férias remuneradas, maior porcentagem no final do ano. Aliás, foi depois de eu indicar o livro do Vargas Llosa, “Pantaleão e as Visitadoras” para eles lerem, que passaram a encarar a atividade de maneira mais profissional. Antes, não tinham controle das “meninas”, não havia livro caixa, nada disso. Agora, todo fim de noite, eles sentam-se em uma mesa do boteco e as “meninas”, na mais absoluta confiança, ao final do expediente, cientes do dever cumprido, entregam a féria do dia, recebem sua parte, para, finalmente, voltar às suas casas para repousar depois de um exaustivo dia de trabalho, certas de que estão sendo cuidadas, assistidas e protegidas.
Aliás, principalmente, protegidas, porque, tentem fazer alguma coisa de mal para as “meninas” da Otília e do Altair. Ele continua calçando sapatos brancos com detalhes em vermelho e ainda sabe manejar muito bem a sua navalha.
A rua era muito movimentada e freqüentada por toda espécie de gente: marinheiros dos mais distantes pontos do mundo, gigolôs, malandros, turistas estrangeiros, curiosos, enfim, todo tipo de pessoa, a maioria com poucos trocados para passar alguns momentos de prazer.
Também se via muita gente da fina flor da sociedade carioca, não só homens mas, também, mulheres, além de políticos conhecidos, à busca de um prazer proibido. Mas, estes procuravam esconder-se atrás de seus chapéus, echarpes, ou seja lá o que for, para não serem reconhecidos. Não era sem motivo, já que por lá sempre circulavam repórteres fotográficos ávidos por publicar um escândalo. Morriam de pavor só de pensar em ver suas fotos estampadas na primeira página do Diário da Noite ou serem motivos de reportagem no O Cruzeiro.
Era um vai-e-vem constante pela rua ou nas calçadas, à escolha das mulheres que ficavam expostas nas janelas das casas, apoiadas por horas nos parapeitos. (Daí a famosa frase “tem até calo no cotovelo” para designar alguém que tem vasta experiência em alguma coisa). Ou, então, ficavam numa sala, aguardando os fregueses, num entra e sai que não acabava nunca. Afinal, numa atividade de alta rotatividade.
Otília era uma das mais belas e disputadas prostitutas do Mangue. Não havia quem não se apaixonasse, literalmente, por ela. Não só por sua beleza mulata, sensualidade e maneira como satisfazia seus fregueses, mas, também, pelo carinho com que tratava a todos e, muitas vezes, a todas. Quando a conheci ela tinha 18 anos e, desde então, nos tornamos muito amigos. Sempre que ia ao Mangue eu a procurava e, se ela estava ocupada, esperava o final do expediente quando, então, ficávamos conversando e tomando nossas cachaças e cervejas até o amanhecer, junto com o Altair, sua grande paixão, com quem, também, eu mantinha uma grande amizade.
Altair era marinheiro da marinha mercante brasileira e vivia circulando pelo mundo. Era um negro alto, bonito e vistoso e, por onde passava, chamava a atenção. Era extremamente simpático, tinha muitos amigos e reinava no Mangue, o que despertava um tremendo ciúme na Otília. Não foram poucas as brigas que eu presenciei entre a Otília e outras mulheres, para defender “seu homem”. E o Altair, malandro, ficava só olhando de longe, deliciando-se com aquela disputa. Mas, no final das contas, era para a Otília que ele sempre voltava.
Uma das maiores paixões de Altair era viajar e desembarcar nos portos do mundo todo. Com exceção da Oceania, conhecia muitos portos de diferentes países dos outros continentes. E, dizia ele, em cada porto que chegava, havia alguém a esperá-lo. Isso até parece frase feita, mas, em se tratando do Altair, não era pra duvidar. Mas, por sua vez, vivia contando os dias, horas e minutos para desembarcar no Rio e correr para os braços da Otília. “Insubstituível”, dizia ele.
Como todo malandro da época, ele gostava de se vestir a caráter: calça impecavelmente branca com vinco rigorosamente bem passado, camisa colorida de seda com mangas compridas, chapéu panamá, meias brancas, sapatos brancos com pequenos furos e detalhes em vermelho nas laterais e na parte de cima e, lenço branco de linho, fundamental para enxugar o suor das mãos. (Para ele, tocar numa mulher com as mãos suadas era de uma indelicadeza imperdoável). E, claro, a inseparável navalha em um dos bolsos. Sempre perfumado com os melhores perfumes franceses e os cabelos bem penteados e lustrosos com a melhor brilhantina.
Otília está com 73 anos e Altair, com 78. Estão casados no sentido de que estão juntos desde a época do Mangue. Hoje eles dirigem uma próspera empresa de Prestação de Serviços, na Lapa, sendo que o “escritório” deles fica no Boteco.
Eles têm, à sua disposição, um bom número de “meninas” que, diga-se de passagem, são muito bem tratadas. Elas têm assistência médica, odontológica e registro em carteira, obviamente não como “modelo e atriz” já que não são tão finas como estas, mas como secretárias, recepcionistas, auxiliares de enfermagem. Têm férias remuneradas, maior porcentagem no final do ano. Aliás, foi depois de eu indicar o livro do Vargas Llosa, “Pantaleão e as Visitadoras” para eles lerem, que passaram a encarar a atividade de maneira mais profissional. Antes, não tinham controle das “meninas”, não havia livro caixa, nada disso. Agora, todo fim de noite, eles sentam-se em uma mesa do boteco e as “meninas”, na mais absoluta confiança, ao final do expediente, cientes do dever cumprido, entregam a féria do dia, recebem sua parte, para, finalmente, voltar às suas casas para repousar depois de um exaustivo dia de trabalho, certas de que estão sendo cuidadas, assistidas e protegidas.
Aliás, principalmente, protegidas, porque, tentem fazer alguma coisa de mal para as “meninas” da Otília e do Altair. Ele continua calçando sapatos brancos com detalhes em vermelho e ainda sabe manejar muito bem a sua navalha.
Benjamin