segunda-feira, 26 de novembro de 2007

OTÍLIA E ALTAIR

Conheço Otília e Altair há 45 anos quando, pela primeira vez, visitei a Rua do Mangue, no centro da cidade, o local mais famoso e freqüentado do baixo meretrício carioca. Isso foi em 1962, se não estou enganado, ou, mesmo, antes. Dividem com freqüência a minha mesa no Boteco, quando conversamos sobre diversas coisas, principalmente, sobre os “bons tempos”. Tempos em que se podia andar pelas madrugadas cariocas sem medo.

A rua era muito movimentada e freqüentada por toda espécie de gente: marinheiros dos mais distantes pontos do mundo, gigolôs, malandros, turistas estrangeiros, curiosos, enfim, todo tipo de pessoa, a maioria com poucos trocados para passar alguns momentos de prazer.

Também se via muita gente da fina flor da sociedade carioca, não só homens mas, também, mulheres, além de políticos conhecidos, à busca de um prazer proibido. Mas, estes procuravam esconder-se atrás de seus chapéus, echarpes, ou seja lá o que for, para não serem reconhecidos. Não era sem motivo, já que por lá sempre circulavam repórteres fotográficos ávidos por publicar um escândalo. Morriam de pavor só de pensar em ver suas fotos estampadas na primeira página do Diário da Noite ou serem motivos de reportagem no O Cruzeiro.

Era um vai-e-vem constante pela rua ou nas calçadas, à escolha das mulheres que ficavam expostas nas janelas das casas, apoiadas por horas nos parapeitos. (Daí a famosa frase “tem até calo no cotovelo” para designar alguém que tem vasta experiência em alguma coisa). Ou, então, ficavam numa sala, aguardando os fregueses, num entra e sai que não acabava nunca. Afinal, numa atividade de alta rotatividade.

Otília era uma das mais belas e disputadas prostitutas do Mangue. Não havia quem não se apaixonasse, literalmente, por ela. Não só por sua beleza mulata, sensualidade e maneira como satisfazia seus fregueses, mas, também, pelo carinho com que tratava a todos e, muitas vezes, a todas. Quando a conheci ela tinha 18 anos e, desde então, nos tornamos muito amigos. Sempre que ia ao Mangue eu a procurava e, se ela estava ocupada, esperava o final do expediente quando, então, ficávamos conversando e tomando nossas cachaças e cervejas até o amanhecer, junto com o Altair, sua grande paixão, com quem, também, eu mantinha uma grande amizade.

Altair era marinheiro da marinha mercante brasileira e vivia circulando pelo mundo. Era um negro alto, bonito e vistoso e, por onde passava, chamava a atenção. Era extremamente simpático, tinha muitos amigos e reinava no Mangue, o que despertava um tremendo ciúme na Otília. Não foram poucas as brigas que eu presenciei entre a Otília e outras mulheres, para defender “seu homem”. E o Altair, malandro, ficava só olhando de longe, deliciando-se com aquela disputa. Mas, no final das contas, era para a Otília que ele sempre voltava.

Uma das maiores paixões de Altair era viajar e desembarcar nos portos do mundo todo. Com exceção da Oceania, conhecia muitos portos de diferentes países dos outros continentes. E, dizia ele, em cada porto que chegava, havia alguém a esperá-lo. Isso até parece frase feita, mas, em se tratando do Altair, não era pra duvidar. Mas, por sua vez, vivia contando os dias, horas e minutos para desembarcar no Rio e correr para os braços da Otília. “Insubstituível”, dizia ele.

Como todo malandro da época, ele gostava de se vestir a caráter: calça impecavelmente branca com vinco rigorosamente bem passado, camisa colorida de seda com mangas compridas, chapéu panamá, meias brancas, sapatos brancos com pequenos furos e detalhes em vermelho nas laterais e na parte de cima e, lenço branco de linho, fundamental para enxugar o suor das mãos. (Para ele, tocar numa mulher com as mãos suadas era de uma indelicadeza imperdoável). E, claro, a inseparável navalha em um dos bolsos. Sempre perfumado com os melhores perfumes franceses e os cabelos bem penteados e lustrosos com a melhor brilhantina.

Otília está com 73 anos e Altair, com 78. Estão casados no sentido de que estão juntos desde a época do Mangue. Hoje eles dirigem uma próspera empresa de Prestação de Serviços, na Lapa, sendo que o “escritório” deles fica no Boteco.

Eles têm, à sua disposição, um bom número de “meninas” que, diga-se de passagem, são muito bem tratadas. Elas têm assistência médica, odontológica e registro em carteira, obviamente não como “modelo e atriz” já que não são tão finas como estas, mas como secretárias, recepcionistas, auxiliares de enfermagem. Têm férias remuneradas, maior porcentagem no final do ano. Aliás, foi depois de eu indicar o livro do Vargas Llosa, “Pantaleão e as Visitadoras” para eles lerem, que passaram a encarar a atividade de maneira mais profissional. Antes, não tinham controle das “meninas”, não havia livro caixa, nada disso. Agora, todo fim de noite, eles sentam-se em uma mesa do boteco e as “meninas”, na mais absoluta confiança, ao final do expediente, cientes do dever cumprido, entregam a féria do dia, recebem sua parte, para, finalmente, voltar às suas casas para repousar depois de um exaustivo dia de trabalho, certas de que estão sendo cuidadas, assistidas e protegidas.

Aliás, principalmente, protegidas, porque, tentem fazer alguma coisa de mal para as “meninas” da Otília e do Altair. Ele continua calçando sapatos brancos com detalhes em vermelho e ainda sabe manejar muito bem a sua navalha.
Benjamin

sábado, 24 de novembro de 2007

EU, HEIN!


Há dias na vida da gente que é preferível não colocar os pés pra fora de casa. Comigo aconteceu numa segunda-feira. Mas, como não consigo deixar de ir ao Boteco, resolvi sair.

Segunda-feira é um dia de pouco movimento no Boteco e, mesmo, na Lapa. Afinal todos são filhos de Deus e têm seus dias pra descansar. Não há puta, traveco, malandro, ou indivíduo de qualquer outra profissão, que agüente uma segunda-feira depois de um final de semana puxado. As meninas da Otília e Altair, por exemplo, têm folga na segunda-feira. Poucos e poucas são os que ficam por ali. As exceções ficam por conta dos “viciados” em Lapa, dos moradores de ruas, dos eira nem beira...

Eu, como sempre, estava lá ‘batendo ponto’. Afinal, pra quem gostar de bebericar, de ouvir e contar histórias, não dá pra ficar um dia sem freqüentar a Lapa e, particularmente, o Boteco.

Mas, essa segunda-feira estava um pouco devagar. Ninguém pra conversar. O Eulídio, praticamente, dormia no balcão. O Antenor, sem ter muito a quem atender, assentou os quartos numa cadeira e lá ficou.

Eu estava absorto na minha mesa (minha sem aspas, pois eu já assumi que a mesa é minha. Mania de grandeza...) olhando o pouco movimento lá fora, quando ouvi uma voz (eu não sei o que acontece comigo com essa coisa de ficar ouvindo vozes...).

“Oi!”, alguém falou com uma voz grossa e melodiosa.

“Oi!”, respondeu uma voz feminina e doce.

Percebi que o som vinha da prateleira que fica atrás do balcão. E o diálogo continuou...

“Você é nova aqui?”

“Cheguei hoje. Sou de Parati”.

“Parati? Adoro Parati. Lá tem muitos apreciadores”

“É, tem sim. Eu gostaria de ter ficado lá onde estão todas as minhas amigas, mas, você sabe como é essa nossa vida, não temos autonomia”.

“É verdade. Mas, eu acho que conheço você! Qual é a sua graça?” Ele era muito metido a querer falar difícil e achava que perguntar ‘qual sua graça’ ao invés de ‘qual seu nome’ ou, então, ‘como você se chama’, era mais envolvente, impressionava mais.

“Eu me chamo Maria Izabel. Você é o Anísio Santiago, não?”

“Ooohhh!! Você me conheeeeceeee?!?!” responde Anísio com a falsa modéstia e a soberba que sempre o caracterizou, com a voz mais melodiosa ainda.
“Claro, quem não te conhece?” respondeu Maria Izabel, já fascinada pelo Anísio. “Você é de Salinas”, continuou, “possui uma graduação alcoólica de 44,8%, permanece de 6 a 8 anos em tonéis de carvalho e bálsamo, o que te deixa com cheiro de madeira seca, além de um leve amargor que permanece na boca, com sabor e aroma persistentes. Você é forte!” Maria Izabel pronunciou esta última palavra com tal sensualidade que fez Anísio tremer na prateleira. “Sem contar que você é mais que uma cachaça – é um mito!”

Ao ouvir a palavra “mito”, Anísio já não conseguia se controlar, tanta era sua vaidade. Por pouco ele não despenca da prateleira.

“Além do mais”, continuou Maria Izabel, “você foi o segundo colocado no Ranking Playboy da Cachaça”.

“E você foi a 11ª. colocada...! Agora me lembro onde a vi pela primeira vez e como fiquei deslumbrado pela sua beleza. Apesar de você ter uma graduação alcoólica de 44% e ficar entre 1 e 4 anos em carvalho, você é de uma suavidade, aroma e sabor indescritíveis”, disse Anísio e completou “e apaixonante...”

Anísio e Maria Izabel já estavam em outra dimensão.

“Você fica muito sensual nesse rótulo”, disse Anísio, já ciente de que algo de bom iria acontecer entre eles.

Maria Izabel percebeu o olhar de Anísio para além de seu rótulo e, como quem não quer nada, já com a certeza de que tinha conquistado o ‘segundo colocado do Ranking da Playboy’, falou com uma voz suave e quente: “fui convidada a posar para a Playboy...”

“Não me diga!!!”, respondeu Anísio babando..

“Serão fotos artísticas sem rótulo”, respondeu a ‘despretensiosa’ Maria Izabel.

Bom, depois de ouvir isso, eu me levantei, olhei para a prateleira e fui embora, preocupadíssimo. O que eu pensei ter ouvido foi, com certeza, conseqüência das doses que eu tomei de Anísio Santiago e Maria Izabel.

No dia seguinte, voltei ao Boteco, sentei-me à minha mesa, olhei de soslaio para a prateleira, chamei o Antenor, para pedir uma dose, quando ele começou a contar que por duas vezes, na noite passada, ele acordou com um barulho estranho, típico de garrafas quando batem umas nas outras. Ele desceu preocupado achando que tinha algum ladrão no bar, mas estava tudo em ordem.

Imediatamente, olhei para a prateleira e percebi que o rótulo da Maria Izabel estava desarrumado e rasgado numa das extremidades...

Cancelei o pedido, levantei-me e sem dizer nada, fui embora. Antenor não entendeu nada.

Prometi que a partir daquele dia que nunca mais iria misturar cachaças.

Eu, hein!

Benjamin

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Um pouco mais picante...

SOB O SOL


Onde não estás... estás!

Sob o sol claro
sinto teu passo companheiro
vivendo na minha sombra.

Em meio à brisa morna, envolvente,
sinto tuas mãos tocarem meus seios
que vibram a espera dos teus lábios... da tua boca.
E sob o sol úmido
teus beijos escorrem por minha pele nua.

Sinto roçar meus olhos
a imagem (brilhante) do teu sorriso
capturado naquele momento preciso
que revela o presente recebido,
oferecido, trocado, compartilhado.

Meu sorriso então surge sob o sol quente
no reflexo de tuas ondas de magia
que ternamente acariciam minhas pernas.

Assim viajo na irrealidade onírica do desejo
Pois, onde estás... na realidade, não estás.

Por isso escrevo, escrevo, escrevo...
Só para te manter dentro de mim.

Gabi Oliveira

Minha amiga Paroxetina.

REFORMATAÇÃO

Minha auto-imagem
era minha sombra
Agora ela sou eu
Só que não sou mais eu
Quer dizer, não sou totalmente eu

Sou totalmente auto
Totalmente imagem

Santo antidepressivo!


Gabi Oliveira

Tem a da pinga do benjamin...

Espírito de Parati

Maria Isabel
Cor de mel

Mulher poderosa,
Entrosa!
Na boemia
Anestesia!
Boa de prosa,
Dosa!
Mesmo de dia
Extasia!
Sem força bruta
Recruta!
Não fica à toa,
Voa!
Fêmea astuta
Luta!

E ainda atordoa
Muito boa...

Gabi Oliveira

Psicanalítico

PERSONA

Não se iluda com a persona
Ela esta ai para seduzir, aliciar adeptos
Para uma seita bastante sinistra.
Adeptos não, vítimas!
Vítimas para um ritual de sacrifício.
Vítimas a serem queimadas
No fogo dos instintos selvagens.
E não se iluda!
Por trás da persona sólida e serena
A carne arde... como magma.

Gabi Oliveira

Uma provocação!

ENCANTO E DESENCANTO

Só os novos amam
Sinceramente amam o amor
Sem ressalvas sonham o amor
Sem reservas vivem o amor

Só os novos anseiam pelo amor
Saboreiam o amor
Se embriagam de amor
Sofrem pelo amor e pelo desamor

Só os novos sentem fé no amor

Os velhos... são pragmáticos

Gabi Oliveira

CD Marina De La Riva

Marina De La Riva é mineira, filha de brasileira e cubano. O CD que leva o seu nome tem uma mistura de músicas cubanas e brasileiras. A seleção musical é de primeira. Não sai do rádio do meu carro. RECOMENDO!!!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

INFARTO

O coração isquêmico
reclama por oxigênio.
Que venham as palavras
aliviar esta angina
pousando suas mãos
sobre o tecido agonizante.

Que venha a poesia
irrigar o músculo que morre
com os rítmicos afagos
das formas e das imagens.

Que venha a beleza
substituir a necrose
restaurando fibra por fibra
o coração abandonado.

Gabi Oliveira

Voa ao vento (voa ao verso)

Voa ao vento...(volátil).
Voa no vapor do vermute e da vódca.
Voa no vigor do vômito,
no vermelho do Vesúvio vivo,
no vai e vem do vulto volúvel das vagas.
Voa vadia ou virginal,
com velocidade vertiginosa
ou vincada de vírgulas.
Mas, voa! Voa na voz do verso
antes que o vento se esvaeça...

Gabi Oliveira

Sem palavras

Foram tantas as palavras...
Palavras ardilosas,
Palavras brandas,
Amorosas,
Iradas,
Calorosas..., emocionadas!

Foram tantos os jogos verbais...
Jogos para agredir;
Jogos para conquistar;
Iludir,
Provocar,
Seduzir..., arrebatar!
Agora só queria te dar
Alguns poucos minutos
De silencioso carinho.

Gabi Oliveira

JOÃO BAPTISTA


Algumas histórias estranhas acontecem no Boteco. Estava tranqüilamente à “minha” mesa, desta vez tomando somente água com gás, uma vez que a noite passada foi um pouco “complicada”, quando ouço um “Psiu! Psiu!”. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Perguntei para o Eulídio se alguém estava me chamando e ele também não viu ninguém.

Mas, o “Psiu! Psiu!” continuava e, quando olho em direção à porta, vejo que havia um rosto atrás dela, provavelmente alguém sentado sobre um banquinho. Esse rosto, que eu visualizava apenas a metade, olhava para mim, com o olho arregalado, o que, confesso, me deixou um pouco assustado. Ele perguntou se podia ir até a minha mesa para conversarmos e eu disse que sim. Olhei para o lado para pedir mais uma água com gás e, quando me viro, dei um pulo e caí da cadeira. Não podia acreditar no que estava vendo. Em cima da mesa tinha uma cabeça, apenas uma cabeça, que olhava para mim, tão assustado quanto eu.

“Por favor, não fique assustado comigo.”

A cabeça fa-la-va!!! Juro, a cabeça falou comigo. Fiz menção de fugir, mas a cabeça repetiu, com uma voz tão doce, para que eu não ficasse assustado com ela que, aos poucos fui me recuperando e, temeroso, voltei a sentar-me.

“Ma – ma – mas, que- que- quem é você???” perguntei, ao mesmo tempo que estava assustado e pensava o quão ridículo era aquela situação, eu falando com uma cabeça.

“Sou João Baptista”, respondeu olhando de soslaio, meio assustado.

“Jo-jo-ão Ba-bap-tista? O da cabeça?” Quando falei a última frase percebi o ridículo dela.

“Sim, ‘o da cabeça’”, respondeu João Baptista, resignado e já meio de saco cheio. Bom, se é que uma cabeça fica de “saco cheio”.

Um pouco mais recuperado do susto inicial, tentei entender o que estava acontecendo ali. Tinha uma cabeça em cima da mesa, falando comigo e eu estava falando com ela, o que é pior... Percebi que algumas lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto. Estava claro que ali estava uma cabeça com problemas.

“Desculpe-me se te assustei, mas não tive nenhuma intenção. Sei que sou assustador, afinal, não é todo dia que se vê uma cabeça falante. Mas, por favor, converse comigo. Eu me sinto muito só. As pessoas fogem de mim quando chego perto. Por isso, vivo escondido. Mas eu preciso conversar, eu preciso que olhem nos meus olhos, sem medo.”

Fiquei sensibilizado com as palavras do João Baptista e comecei a conversar. Estava, agora, curioso para conhecer a história dele.

“Você, por acaso, é o João Baptista, primo de Jesus, que um dia foi, digamos, como poderia dizer, eh... decapitado???”
“Sim, sou eu”

“Mas isso foi há milênios e você está aí, inteiro, desculpe, isto é, inteiro no sentido de que a cabeça ainda está, digamos, inteira? Como é possível? Como você chegou aqui?” perguntava eu, pasmo.

“Essa é uma história longa e o que devo dizer é que, durante milênios, desenvolvi uma técnica de pensamento que permite que eu me desloque para onde quiser, para a época que quiser”.

“Mas o que você veio fazer justamente aqui, no Brasil, no Rio de Janeiro, na Lapa, no Boteco, e, principalmente, na “minha” mesa?”.

“Bom, primeiro, senti tive curiosidade de conhecer o Brasil, especialmente o Rio, onde ouvi dizer que os homens perdem a cabeça pelas belas mulheres que aqui tem. Achei que iria encontrar inúmeras cabeças perambulando e que seria o lugar ideal para eu viver, finalmente, em paz. Mas, qual! Ledo engano! Todos têm a cabeça no lugar. E o fato de estar na sua mesa, foi puro acaso”, disse, desconsolado, João Baptista.

Tive que explicar a ele que “perder a cabeça” era somente no sentido figurativo. Significava que os homens ficavam loucos por uma mulher, mas que não perdiam, literalmente, a cabeça. Mas não pude deixar de notar a decepção dele.

Já estava criando certo vínculo afetivo com João Baptista, quando perguntei se ele gostaria de comer alguma coisa. Alguns salaminhos, torresminhos, coisas assim, bem leves para uma cabeça, imagino eu. Ele respondeu que sim, todo entusiasmado e já olhando pra mim com certa afetividade. Acho que estávamos virando amigos.

Nesse dia, Antenor não foi trabalhar, pois estava um pouco adoentado. Quem veio substituí-lo foi Salomé, uma mulata estonteante que deixava o Eulídio louco.
Virei-me e pedi: “Salomé, traz uma bandeja de frios aqui pro meu amigo João Baptista.”

Ao olhar em direção à mesa, João Baptista estava branco, suava e gritava desesperado: “Salomé?! Bandeja?! Salomé?! Bandeja?!”

De repente, João Baptista escafedeu-se, sumiu e nunca mais foi visto.

Naquele dia eu decidi que nunca mais iria tomar água com gás!










ANTENOR

Antenor mora há 42 anos num quarto encima do Boteco, onde vive de suas recordações, que não são poucas. É o garçom mais antigo de lá e o que mais leva a sério a sua profissão. Até hoje, veste-se com a tradicional roupa dos garçons, ao contrário de seus colegas mais jovens, apesar do Boteco ser um botequim. Botequim sim, mas com dignidade, diga-se de passagem! Seu paletó, apesar de um pouco surrado, está sempre branco, sem manchas e a gravata borboleta sempre muito bem arrumada.

É extremamente solícito com todos, faz absoluta questão de agradar o freguês. Sempre que eu vou chegando, Antenor, já vai trazendo uma dose de minha cachaça preferida. Bom, devo dizer que essa dose sempre muda, uma vez que todas, ou quase todas, são as minhas “preferidas”. Mas, como freqüento o Boteco há anos, Antenor sabe do que eu gosto.

Antenor e eu somos muito amigos, não só porque simplesmente aprendemos a gostar um do outro mas, também, pelo fato de sermos flamenguistas de terra e mar. De “carteirinha”. Talvez isso tenha nos aproximado mais ainda. Quando conversamos sobre o Flamengo, o Eulídio, dono do Boteco e vascaíno convicto como todo bom português, nem chega perto.

Adoro as histórias do Antenor sobre o Flamengo e não me canso de ouvi-las, principalmente aquela do campeonato do Mengão em 1953, que levou ao segundo tri do time em 1955. É a que mais me emociona, pois foi quando me apaixonei pelo Flamengo. Eu tinha 8 anos e “via” os jogos pelo rádio. E, o que é mais fantástico, Antenor jogou a partida que deu o título ao Flamengo, contra o América, e fez o gol da vitória. Então, vocês imaginem quanta emoção quando conheci o Antenor, muitos anos depois.

Antenor está com 73 anos. Nasceu em Madureira, subúrbio do Rio e, como todo garoto, sempre gostou de futebol. Era centro-avante e, desde os 15 anos, jogou em times profissionais, tradicionais, mas sem muito destaque no mundo futebolístico: Madureira, São Cristóvão, Olaria, Bangu, Canto do Rio lá de Niterói. Não era um craque, mas, também, não chegava a ser um cabeça-de-bagre. Até que um dia a sorte do Antenor mudou. Durante um jogo do São Cristóvão contra o Flamengo, vencido por aquele por 2 a 0, Antenor, que havia feito os dois gols, jogou como nunca. Estava inspiradíssimo. Foi o que bastou para Fleitas Solich, técnico do Flamengo, contratá-lo.

Isso foi no final de 1953, ano em que o Flamengo foi Campeão Carioca. Era um timaço: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Paulinho, Rubens, Índio e Zagallo. Sem contar com Dida, Moacir, Henrique e outros cracaços que levaram o Mengo ao seu segundo tri em 1955. Quando Antenor chegou à Gávea e começou a treinar com esse time, não acreditava que a vida tinha dado a ele essa grande oportunidade.

Mas, não era fácil arrumar um lugar no time. Também, como tirar um Rubens ou um Índio do time? Dificilmente ele jogava uma partida oficial. Às vezes, nem na reserva ficava, já que ele era o segundo reserva do Rubens. O primeiro era Nando.

Mas, como sempre, o imprevisto pode bater à porta e a gente tem que estar preparado para recebê-lo. Era a última semana antes do jogo decisivo contra o América. Rubens havia se machucado e não poderia jogar a decisiva. Nando iria substituí-lo. Antenor passaria à reserva. Nando era um bom jogador, mas um tanto indisciplinado. Na véspera do jogo, Nando fugiu da concentração e foi ao Mangue, tradicional reduto carioca da prostituição. Voltou somente no dia seguinte pela manhã, horas antes do jogo, completamente bêbado e sem nenhuma condição de jogar.

Escalado na última hora para jogar a final, Antenor não temeu e nem tremeu. Foi seu grande dia de glória. Marcou três no América e saiu nos ombros do povão. Só se falava nele. Nelson Rodrigues escreveu as mais belas crônicas sobre ele no Jornal dos Sports e no O Globo. Foi a grande consagração de Antenor que, por onde passava, era reverenciado, beijado.

Mas, como a história não perdoa e se repete para aqueles que não estão preparados, a glória subiu à cabeça de Antenor. Foi o começo do seu fim. E a história dele não é nem um pouco diferente das muitas que se conhece de ex-jogadores de futebol. Noitadas na farra, bebedeiras, mulheres, pouco treino e pouco futebol. O Flamengo dispensou-o em meados de 1954 e ele voltou a perambular pelos times pequenos, sem dinheiro.

O casamento acabou e os filhos (tinha três) não podiam vê-lo, já que sua ex-mulher não permitia. Ele abandonou o futebol e foi trabalhar de garçom justamente no bar do Eulídio. Isso faz 42 anos.

Mas, se vocês pensam que Antenor é um homem infeliz, estão muito enganados. Hoje ele tem um neto que joga no futebol holandês, vive de recordações e, seu maior orgulho, no Boteco, cheio de fotos, flâmulas e lembranças vascaínas, é que lá tem uma única foto do Flamengo, o do time antes da partida decisiva com o América. E Antenor está lá. Orgulhoso e feliz.

O BOTECO


O BOTECO

Na melhor localização da Lapa, em frente aos Arcos, está o Boteco. É o meu local preferido e onde tenho a “minha” mesa, como freqüentador assíduo, colocada em um lugar estratégico do botequim.
Como sempre faço todos os dias ao anoitecer, vou ao Boteco, meu botequim preferido na Lapa, o bairro mais boêmio do Rio. É lá que eu aprendo um pouco da vida, ouvindo histórias contadas desde os mais humildes até os mais abastados. Cada um vivendo a seu modo, com seu problema, ou sem problema, fazendo o que lhe foi destinado na vida. Alguns vivendo “como Deus quer”, como dizem, embora, seja difícil acreditar que Deus, se existe, queira que vivam assim. Mas, vamos deixar isso de lado, pois teríamos que entrar numa discussão teólogo-filosófica que, certamente, não irá levar a lugar nenhum. Além do que, não tenho conhecimento teológico ou filosófico para discutir assunto tão relevante.

Por lá passa, todas as noites, a mais variada “fauna”: boêmios inveterados com seus violões, bêbados, gente de “bem”, prostitutas, travestis, proxenetas, traficantes, jogadores de futebol, universitários, profissionais liberais, funcionários públicos, músicos, políticos, desocupados de todas as “profissões”, moradores de rua etc, etc.

Enquanto observo o movimento, vou bebericando minha cachacinha, comendo meu torresminho, tomando uma cerveja, ou mesmo, apenas uma água. O que importa é estar lá e encontrar os amigos de sempre, como o Eulídio, proprietário do Boteco; Antenor, o garçom mais antigo; Otília, ex-prostituta e, atualmente, cafetina das mais respeitadas; Altair, ex-marinheiro e “marido” da Otília com quem dirige os negócios; Antônio, moço rico de Ipanema; Joana, residente em Copacabana, filha de um alto funcionário de uma multinacional; Povunido, eterno marxista; Gerúndio, funcionário de uma empresa de TV paga; Alemão, engraxate que sabe de tudo o que acontece na Lapa e que reside no Complexo do Alemão; Político, metido a político e eterno candidato que nunca conseguiu eleger-se pra nada; e, os muitos Anônimos, conhecidos de quem a gente nunca lembra o nome.

Lá, na “minha” mesa, ouço histórias de todo tipo. Muitas com final feliz, outras nem tanto. Algumas muito estranhas.

Quando for ao Rio apareça no Boteco pra gente bater um papo. Fica em frente ao sexto pilar que sustenta os Arcos. A “minha” mesa você reconhece facilmente. Se eu não estiver lá, deixe um recado com o Eulídio ou o Antenor que eu te encontro.

PAIXÕES E DESENCONTROS

“Paixões e Desencontros
ou
“A Triste História de Bêbado que Amava Equilibrista que Amava Burner que Amava Sá Marina que Amava Bêbado”.


Esta é a história de Bêbado e Equilibrista e Burner e Sá Marina, dois casais que viviam em mundos diferentes, que se amavam, mas que, por força de desencontros tiveram suas vidas mudadas e feridas.

Bêbado e Equilibrista viviam na Lapa, tradicional reduto boêmio do Rio de Janeiro. Conheceram-se há muitos anos, lá mesmo, numa noite quente de sábado, com o tradicional samba carioca animando os freqüentadores.

Bêbado – o nome já diz tudo – era um freqüentador assíduo do mundo boêmio da Lapa, exímio violonista e cantor. Encantava a todos que o ouviam interpretar os mais bonitos sambas e sambas-canções.

Equilibrista, cujo nome recebeu do tempo em que atuava como equilibrista de um circo russo, era assídua freqüentadora da Lapa e fã incondicional de Bêbado, por quem se apaixonou.

Burner e Sá Marina moravam num fantástico apartamento de cobertura na Vieira Souto, em Ipanema. Burner era presidente de uma multinacional americana, com sede no Rio, e estava no Brasil há cerca de dez anos. Conheceu Sá Marina, típica Garota de Ipanema em todos os sentidos, durante uma visita turística ao Corcovado. Apaixonaram-se e, dois anos após o primeiro encontro, casaram-se. Burner era muito reservado, ao contrário de Sá Marina, expansiva e que gostava de freqüentar locais boêmios, como a Lapa.

Bêbado e Equilibrista viveram felizes por muitos anos. Foram Anos Dourados de harmonia, felicidade, paixão, tesão, amor verdadeiro. Mas, como todo grande amor, este também estava sujeito a desencontros. E era o que estava acontecendo. Talvez movida por ciúmes, ou mesmo, por desencanto, a relação de Bêbado e Equilibrista não estava bem. Bêbado era um boêmio por natureza, sempre rodeado por admiradoras e Equilibrista já não estava mais suportando tanto assédio a ele, assim como, estava à procura de uma vida mais segura, o que Bêbado, certamente, não oferecia a ela. A convivência entre os dois estava se tornando difícil e Equilibrista precisava de um tempo, só, para refletir sobre suas vidas.

Burner e Sá Marina passavam pelo mesmo processo de desencontros, movidos, principalmente, pelo temperamento diferente deles. Burner era muito Carinhoso mas, somente isso não satisfazia Sá Marina. Ela gostava de viver intensamente, curtir as boas coisas que a vida oferecia. Gostava de freqüentar a Lapa, geralmente acompanhada de amigos, já que Burner não gostava de ir a esses locais, não por preconceito ou qualquer coisa desse tipo, mas, sim, simplesmente porque não curtia. E foi, numa de suas idas à Lapa que Sá Marina conheceu Bêbado e ficou enfeitiçada.

Equilibrista foi à Bahia a passeio, para tentar esquecer as desavenças com Bêbado quando, então, sua vida começou a mudar no momento em que, na Baixa do Sapateiro, encontrou Burner. Este foi à Bahia para curar a grande ressaca do amor perdido, já que o grande amor de sua vida Sá Marina, havia confessado que estava apaixonada por outro homem. Ao vê-lo, Equilibrista apaixonou-se imediatamente. Equilibrista era uma mulher muito bonita, corpo escultural, chamava a atenção por onde passava e Burner não deixou de notá-la. Para Burner, aquela era a ocasião ideal para curar sua ressaca de amor. Aproximaram-se, conversaram, jantaram a luz de velas no Asa Branca, restaurante famoso de Salvador e, de lá, foram direto ao Hotel Amazonas, ali mesmo, na Baixa do Sapateiro, onde viveram o grande momento da complementação do amor. Equilibrista, apaixonada, sussurrava em seu ouvido “I’ve got you under my skin”, “Fly me to the moon” e Burner, Carinhoso, retribuía o pedido. Passaram dias maravilhosos em Salvador, vivendo intensamente cada segundo de suas vidas. Mas, como tudo não passa de uma ilusão, Nada Além que uma ilusão, era hora de voltar à realidade. Era hora de retornarem ao Rio.

Sá Marina, por sua vez, continuava a freqüentar a Lapa e estava cada vez mais apaixonada por Bêbado. Este é claro, não deixou de notar o assédio de Sá Marina. Até que, numa daquelas noites maravilhosas em que a lua cheia iluminava os arcos da Lapa e os corações dos apaixonados, Bêbado e Sá Marina, descendo a Rua da Ladeira, entraram no St. Louis Blues, hotel de quinta categoria, onde passaram uma noite inesquecível.

Apesar da aventura vivida por eles, Bêbado e Equilibrista, assim como, Burner e Sá Marina, continuavam vivendo juntos. Bêbado continuava amando Equilibrista, e Burner, Sá Marina. Eram os grandes amores de suas vidas. Mas, essa convivência não duraria muito tempo. Os casais não se conheciam e não sabiam que suas vidas estavam entrelaçadas.

Sá Marina só pensava em Bêbado e não via a hora de revê-lo, mas evitava ir sozinha à Lapa. Num Saturday Night, como Burner costumava chamar os sábados de agitação no Rio de Janeiro, Sá Marina conseguiu convencer Burner a levá-la à Lapa. Mesmo à contra gosto, Burner concordou, pois queria reconquistá-la. Sá Marina ficou exultante, pois essa era a oportunidade de rever Bêbado.

Bêbado, como sempre, estava acompanhado de Equilibrista, rodeado de admiradores, dedilhando com nostalgia as cordas de seu violão, quando ambos viram Burner e Sá Marina aproximarem-se da mesa onde estavam. Nesse momento ouviam-se, apenas, as batidas aceleradas dos corações.

Não havia mais como disfarçar. Burner percebeu os olhares apaixonados de Sá Marina para Bêbado, assim como, Bêbado percebeu os de Equilibrista para Burner. Formou-se uma intensa atmosfera de ciúmes.

Já não suportando o ciúme que dilacerava seu coração, Burner perguntou, alterado, à Sá Marina “Who’s that creeping?”. Sá Marina, também alterada, respondeu “Don’t get around much anymore”, não suportando mais a presença de Burner que, alucinado, pensava “They can’t take that way from me”, “They can’t take that way from me”!

Equilibrista, vendo toda a cena de Burner e Sá Marina, foi ao encontro de sua grande paixão. Nesse momento, Bêbado percebeu que os Anos Dourados com Equilibrista haviam ficado na Baixa do Sapateiro.

Movido pelo ciúme, Bêbado sacou sua arma e apontou em direção a Burner. Equilibrista percebeu e gritou, desesperada, “Hay Burner”. Burner virou-se e Bêbado, à queima roupa, deu um Satin Doll em Burner que caiu ali mesmo, ensangüentado. Bêbado, assustado, deixou a arma cair. Equilibrista pegou a arma e, desesperada, atirou em Bêbado. Sá Marina gritou em desespero, avançou sobre Equilibrista, tomou a arma dela e matou-a. Num gesto extremo, vendo seu grande amor morto, Sá Marina apontou a arma para a própria cabeça e atirou.

Quatro corpos estendidos no chão, cobertos com folhas de jornal que anunciava uma tragédia, circundados por velas acesas. Mortos pela traição. Mortos pelo ciúme. Mortos pelo amor.

É! Se estivessem vivos e presentes, Lupicínio Rodrigues teria dito a Noel Rosa, numa típica Conversa de Botequim, “Esses Moços, pobres moços, ah! se soubessem o que eu sei...”

É uma merda...

CIÚME
Mergulho na dúvida, na amargura, na angústia, na loucura.
Mergulho sem ternura, sem candura, sem doçura.
Mergulho nua na rua imunda e puta me torturo
Num murmúrio lúgubre e inútil.
Mergulho fundo... luto.
Luto... murcho.
E, de luto,
Fujo

Síncopa

Um passo em descompasso não fica bem na marcha enfadonha — e nada musical — dos soldados.

Que quero eu com soldados?