Há dias na vida da gente que é preferível não colocar os pés pra fora de casa. Comigo aconteceu numa segunda-feira. Mas, como não consigo deixar de ir ao Boteco, resolvi sair.
Segunda-feira é um dia de pouco movimento no Boteco e, mesmo, na Lapa. Afinal todos são filhos de Deus e têm seus dias pra descansar. Não há puta, traveco, malandro, ou indivíduo de qualquer outra profissão, que agüente uma segunda-feira depois de um final de semana puxado. As meninas da Otília e Altair, por exemplo, têm folga na segunda-feira. Poucos e poucas são os que ficam por ali. As exceções ficam por conta dos “viciados” em Lapa, dos moradores de ruas, dos eira nem beira...
Eu, como sempre, estava lá ‘batendo ponto’. Afinal, pra quem gostar de bebericar, de ouvir e contar histórias, não dá pra ficar um dia sem freqüentar a Lapa e, particularmente, o Boteco.
Mas, essa segunda-feira estava um pouco devagar. Ninguém pra conversar. O Eulídio, praticamente, dormia no balcão. O Antenor, sem ter muito a quem atender, assentou os quartos numa cadeira e lá ficou.
Eu estava absorto na minha mesa (minha sem aspas, pois eu já assumi que a mesa é minha. Mania de grandeza...) olhando o pouco movimento lá fora, quando ouvi uma voz (eu não sei o que acontece comigo com essa coisa de ficar ouvindo vozes...).
“Oi!”, alguém falou com uma voz grossa e melodiosa.
“Oi!”, respondeu uma voz feminina e doce.
Percebi que o som vinha da prateleira que fica atrás do balcão. E o diálogo continuou...
“Você é nova aqui?”
“Cheguei hoje. Sou de Parati”.
“Parati? Adoro Parati. Lá tem muitos apreciadores”
“É, tem sim. Eu gostaria de ter ficado lá onde estão todas as minhas amigas, mas, você sabe como é essa nossa vida, não temos autonomia”.
“É verdade. Mas, eu acho que conheço você! Qual é a sua graça?” Ele era muito metido a querer falar difícil e achava que perguntar ‘qual sua graça’ ao invés de ‘qual seu nome’ ou, então, ‘como você se chama’, era mais envolvente, impressionava mais.
“Eu me chamo Maria Izabel. Você é o Anísio Santiago, não?”
“Ooohhh!! Você me conheeeeceeee?!?!” responde Anísio com a falsa modéstia e a soberba que sempre o caracterizou, com a voz mais melodiosa ainda.
“Claro, quem não te conhece?” respondeu Maria Izabel, já fascinada pelo Anísio. “Você é de Salinas”, continuou, “possui uma graduação alcoólica de 44,8%, permanece de 6 a 8 anos em tonéis de carvalho e bálsamo, o que te deixa com cheiro de madeira seca, além de um leve amargor que permanece na boca, com sabor e aroma persistentes. Você é forte!” Maria Izabel pronunciou esta última palavra com tal sensualidade que fez Anísio tremer na prateleira. “Sem contar que você é mais que uma cachaça – é um mito!”
Ao ouvir a palavra “mito”, Anísio já não conseguia se controlar, tanta era sua vaidade. Por pouco ele não despenca da prateleira.
“Além do mais”, continuou Maria Izabel, “você foi o segundo colocado no Ranking Playboy da Cachaça”.
“E você foi a 11ª. colocada...! Agora me lembro onde a vi pela primeira vez e como fiquei deslumbrado pela sua beleza. Apesar de você ter uma graduação alcoólica de 44% e ficar entre 1 e 4 anos em carvalho, você é de uma suavidade, aroma e sabor indescritíveis”, disse Anísio e completou “e apaixonante...”
Anísio e Maria Izabel já estavam em outra dimensão.
“Você fica muito sensual nesse rótulo”, disse Anísio, já ciente de que algo de bom iria acontecer entre eles.
Maria Izabel percebeu o olhar de Anísio para além de seu rótulo e, como quem não quer nada, já com a certeza de que tinha conquistado o ‘segundo colocado do Ranking da Playboy’, falou com uma voz suave e quente: “fui convidada a posar para a Playboy...”
“Não me diga!!!”, respondeu Anísio babando..
“Serão fotos artísticas sem rótulo”, respondeu a ‘despretensiosa’ Maria Izabel.
Bom, depois de ouvir isso, eu me levantei, olhei para a prateleira e fui embora, preocupadíssimo. O que eu pensei ter ouvido foi, com certeza, conseqüência das doses que eu tomei de Anísio Santiago e Maria Izabel.
No dia seguinte, voltei ao Boteco, sentei-me à minha mesa, olhei de soslaio para a prateleira, chamei o Antenor, para pedir uma dose, quando ele começou a contar que por duas vezes, na noite passada, ele acordou com um barulho estranho, típico de garrafas quando batem umas nas outras. Ele desceu preocupado achando que tinha algum ladrão no bar, mas estava tudo em ordem.
Imediatamente, olhei para a prateleira e percebi que o rótulo da Maria Izabel estava desarrumado e rasgado numa das extremidades...
Cancelei o pedido, levantei-me e sem dizer nada, fui embora. Antenor não entendeu nada.
Prometi que a partir daquele dia que nunca mais iria misturar cachaças.
Eu, hein!
Benjamin
Ao ouvir a palavra “mito”, Anísio já não conseguia se controlar, tanta era sua vaidade. Por pouco ele não despenca da prateleira.
“Além do mais”, continuou Maria Izabel, “você foi o segundo colocado no Ranking Playboy da Cachaça”.
“E você foi a 11ª. colocada...! Agora me lembro onde a vi pela primeira vez e como fiquei deslumbrado pela sua beleza. Apesar de você ter uma graduação alcoólica de 44% e ficar entre 1 e 4 anos em carvalho, você é de uma suavidade, aroma e sabor indescritíveis”, disse Anísio e completou “e apaixonante...”
Anísio e Maria Izabel já estavam em outra dimensão.
“Você fica muito sensual nesse rótulo”, disse Anísio, já ciente de que algo de bom iria acontecer entre eles.
Maria Izabel percebeu o olhar de Anísio para além de seu rótulo e, como quem não quer nada, já com a certeza de que tinha conquistado o ‘segundo colocado do Ranking da Playboy’, falou com uma voz suave e quente: “fui convidada a posar para a Playboy...”
“Não me diga!!!”, respondeu Anísio babando..
“Serão fotos artísticas sem rótulo”, respondeu a ‘despretensiosa’ Maria Izabel.
Bom, depois de ouvir isso, eu me levantei, olhei para a prateleira e fui embora, preocupadíssimo. O que eu pensei ter ouvido foi, com certeza, conseqüência das doses que eu tomei de Anísio Santiago e Maria Izabel.
No dia seguinte, voltei ao Boteco, sentei-me à minha mesa, olhei de soslaio para a prateleira, chamei o Antenor, para pedir uma dose, quando ele começou a contar que por duas vezes, na noite passada, ele acordou com um barulho estranho, típico de garrafas quando batem umas nas outras. Ele desceu preocupado achando que tinha algum ladrão no bar, mas estava tudo em ordem.
Imediatamente, olhei para a prateleira e percebi que o rótulo da Maria Izabel estava desarrumado e rasgado numa das extremidades...
Cancelei o pedido, levantei-me e sem dizer nada, fui embora. Antenor não entendeu nada.
Prometi que a partir daquele dia que nunca mais iria misturar cachaças.
Eu, hein!
Benjamin
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