quinta-feira, 22 de novembro de 2007

JOÃO BAPTISTA


Algumas histórias estranhas acontecem no Boteco. Estava tranqüilamente à “minha” mesa, desta vez tomando somente água com gás, uma vez que a noite passada foi um pouco “complicada”, quando ouço um “Psiu! Psiu!”. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Perguntei para o Eulídio se alguém estava me chamando e ele também não viu ninguém.

Mas, o “Psiu! Psiu!” continuava e, quando olho em direção à porta, vejo que havia um rosto atrás dela, provavelmente alguém sentado sobre um banquinho. Esse rosto, que eu visualizava apenas a metade, olhava para mim, com o olho arregalado, o que, confesso, me deixou um pouco assustado. Ele perguntou se podia ir até a minha mesa para conversarmos e eu disse que sim. Olhei para o lado para pedir mais uma água com gás e, quando me viro, dei um pulo e caí da cadeira. Não podia acreditar no que estava vendo. Em cima da mesa tinha uma cabeça, apenas uma cabeça, que olhava para mim, tão assustado quanto eu.

“Por favor, não fique assustado comigo.”

A cabeça fa-la-va!!! Juro, a cabeça falou comigo. Fiz menção de fugir, mas a cabeça repetiu, com uma voz tão doce, para que eu não ficasse assustado com ela que, aos poucos fui me recuperando e, temeroso, voltei a sentar-me.

“Ma – ma – mas, que- que- quem é você???” perguntei, ao mesmo tempo que estava assustado e pensava o quão ridículo era aquela situação, eu falando com uma cabeça.

“Sou João Baptista”, respondeu olhando de soslaio, meio assustado.

“Jo-jo-ão Ba-bap-tista? O da cabeça?” Quando falei a última frase percebi o ridículo dela.

“Sim, ‘o da cabeça’”, respondeu João Baptista, resignado e já meio de saco cheio. Bom, se é que uma cabeça fica de “saco cheio”.

Um pouco mais recuperado do susto inicial, tentei entender o que estava acontecendo ali. Tinha uma cabeça em cima da mesa, falando comigo e eu estava falando com ela, o que é pior... Percebi que algumas lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto. Estava claro que ali estava uma cabeça com problemas.

“Desculpe-me se te assustei, mas não tive nenhuma intenção. Sei que sou assustador, afinal, não é todo dia que se vê uma cabeça falante. Mas, por favor, converse comigo. Eu me sinto muito só. As pessoas fogem de mim quando chego perto. Por isso, vivo escondido. Mas eu preciso conversar, eu preciso que olhem nos meus olhos, sem medo.”

Fiquei sensibilizado com as palavras do João Baptista e comecei a conversar. Estava, agora, curioso para conhecer a história dele.

“Você, por acaso, é o João Baptista, primo de Jesus, que um dia foi, digamos, como poderia dizer, eh... decapitado???”
“Sim, sou eu”

“Mas isso foi há milênios e você está aí, inteiro, desculpe, isto é, inteiro no sentido de que a cabeça ainda está, digamos, inteira? Como é possível? Como você chegou aqui?” perguntava eu, pasmo.

“Essa é uma história longa e o que devo dizer é que, durante milênios, desenvolvi uma técnica de pensamento que permite que eu me desloque para onde quiser, para a época que quiser”.

“Mas o que você veio fazer justamente aqui, no Brasil, no Rio de Janeiro, na Lapa, no Boteco, e, principalmente, na “minha” mesa?”.

“Bom, primeiro, senti tive curiosidade de conhecer o Brasil, especialmente o Rio, onde ouvi dizer que os homens perdem a cabeça pelas belas mulheres que aqui tem. Achei que iria encontrar inúmeras cabeças perambulando e que seria o lugar ideal para eu viver, finalmente, em paz. Mas, qual! Ledo engano! Todos têm a cabeça no lugar. E o fato de estar na sua mesa, foi puro acaso”, disse, desconsolado, João Baptista.

Tive que explicar a ele que “perder a cabeça” era somente no sentido figurativo. Significava que os homens ficavam loucos por uma mulher, mas que não perdiam, literalmente, a cabeça. Mas não pude deixar de notar a decepção dele.

Já estava criando certo vínculo afetivo com João Baptista, quando perguntei se ele gostaria de comer alguma coisa. Alguns salaminhos, torresminhos, coisas assim, bem leves para uma cabeça, imagino eu. Ele respondeu que sim, todo entusiasmado e já olhando pra mim com certa afetividade. Acho que estávamos virando amigos.

Nesse dia, Antenor não foi trabalhar, pois estava um pouco adoentado. Quem veio substituí-lo foi Salomé, uma mulata estonteante que deixava o Eulídio louco.
Virei-me e pedi: “Salomé, traz uma bandeja de frios aqui pro meu amigo João Baptista.”

Ao olhar em direção à mesa, João Baptista estava branco, suava e gritava desesperado: “Salomé?! Bandeja?! Salomé?! Bandeja?!”

De repente, João Baptista escafedeu-se, sumiu e nunca mais foi visto.

Naquele dia eu decidi que nunca mais iria tomar água com gás!










4 comentários:

Gabi Oliveira disse...

Agua com gás é um perigo mesmo!

Gabi Oliveira disse...

Tem uns meses saiu na carta capital um história bizarra de pedaços de corpos que apareciam misteriosamente na praça de uma cidade. Não lembro se era uma cabeça. No final descobriram que por causa das chuvas (e acho que do lençol freático superficial)os corpos do cemitério ficava quase expostos e os cachorros cuidavam de levar os pedaços para a praça. Isso aconteceu mais de uma vez na mesma cidade antes que descobrissem a origem. Meu filho tinha que escrever uma crônica baseada em uma notícia. Sugeri para ele esta história. Se eu achar o que ele escreveu coloco aqui também.

Gabi Oliveira disse...

Redação do filhote
Era uma vez uma linda cabecinha abandonada do corpo que aparecia todas as manhâs na praça. Toda vez que as pessoas moradoras de Itapoã do Norte enterravam ela aparecia de novo. Um dia uma pessoa ficou de noite na praça para descobrir como a cabeça chegava ali mas ela adormeceu. Depois de muito investigar descobriram que o cachorro Totó trazia a cabeça do cemitério porque a chuva deixava ela meio fora da terra. Um dia um homem entrou no cemitério e tomou um susto porque ouviu uma voz falando pra um cachorro:
- Totó! Me leva pra passear na praça de novo!

Anônimo disse...

Gostei da redação do filhote. Tão louca como do amigo Benjamin.