Antenor mora há 42 anos num quarto encima do Boteco, onde vive de suas recordações, que não são poucas. É o garçom mais antigo de lá e o que mais leva a sério a sua profissão. Até hoje, veste-se com a tradicional roupa dos garçons, ao contrário de seus colegas mais jovens, apesar do Boteco ser um botequim. Botequim sim, mas com dignidade, diga-se de passagem! Seu paletó, apesar de um pouco surrado, está sempre branco, sem manchas e a gravata borboleta sempre muito bem arrumada.
É extremamente solícito com todos, faz absoluta questão de agradar o freguês. Sempre que eu vou chegando, Antenor, já vai trazendo uma dose de minha cachaça preferida. Bom, devo dizer que essa dose sempre muda, uma vez que todas, ou quase todas, são as minhas “preferidas”. Mas, como freqüento o Boteco há anos, Antenor sabe do que eu gosto.
Antenor e eu somos muito amigos, não só porque simplesmente aprendemos a gostar um do outro mas, também, pelo fato de sermos flamenguistas de terra e mar. De “carteirinha”. Talvez isso tenha nos aproximado mais ainda. Quando conversamos sobre o Flamengo, o Eulídio, dono do Boteco e vascaíno convicto como todo bom português, nem chega perto.
Adoro as histórias do Antenor sobre o Flamengo e não me canso de ouvi-las, principalmente aquela do campeonato do Mengão em 1953, que levou ao segundo tri do time em 1955. É a que mais me emociona, pois foi quando me apaixonei pelo Flamengo. Eu tinha 8 anos e “via” os jogos pelo rádio. E, o que é mais fantástico, Antenor jogou a partida que deu o título ao Flamengo, contra o América, e fez o gol da vitória. Então, vocês imaginem quanta emoção quando conheci o Antenor, muitos anos depois.
Antenor está com 73 anos. Nasceu em Madureira, subúrbio do Rio e, como todo garoto, sempre gostou de futebol. Era centro-avante e, desde os 15 anos, jogou em times profissionais, tradicionais, mas sem muito destaque no mundo futebolístico: Madureira, São Cristóvão, Olaria, Bangu, Canto do Rio lá de Niterói. Não era um craque, mas, também, não chegava a ser um cabeça-de-bagre. Até que um dia a sorte do Antenor mudou. Durante um jogo do São Cristóvão contra o Flamengo, vencido por aquele por 2 a 0, Antenor, que havia feito os dois gols, jogou como nunca. Estava inspiradíssimo. Foi o que bastou para Fleitas Solich, técnico do Flamengo, contratá-lo.
Isso foi no final de 1953, ano em que o Flamengo foi Campeão Carioca. Era um timaço: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Paulinho, Rubens, Índio e Zagallo. Sem contar com Dida, Moacir, Henrique e outros cracaços que levaram o Mengo ao seu segundo tri em 1955. Quando Antenor chegou à Gávea e começou a treinar com esse time, não acreditava que a vida tinha dado a ele essa grande oportunidade.
Mas, não era fácil arrumar um lugar no time. Também, como tirar um Rubens ou um Índio do time? Dificilmente ele jogava uma partida oficial. Às vezes, nem na reserva ficava, já que ele era o segundo reserva do Rubens. O primeiro era Nando.
Mas, como sempre, o imprevisto pode bater à porta e a gente tem que estar preparado para recebê-lo. Era a última semana antes do jogo decisivo contra o América. Rubens havia se machucado e não poderia jogar a decisiva. Nando iria substituí-lo. Antenor passaria à reserva. Nando era um bom jogador, mas um tanto indisciplinado. Na véspera do jogo, Nando fugiu da concentração e foi ao Mangue, tradicional reduto carioca da prostituição. Voltou somente no dia seguinte pela manhã, horas antes do jogo, completamente bêbado e sem nenhuma condição de jogar.
Escalado na última hora para jogar a final, Antenor não temeu e nem tremeu. Foi seu grande dia de glória. Marcou três no América e saiu nos ombros do povão. Só se falava nele. Nelson Rodrigues escreveu as mais belas crônicas sobre ele no Jornal dos Sports e no O Globo. Foi a grande consagração de Antenor que, por onde passava, era reverenciado, beijado.
Mas, como a história não perdoa e se repete para aqueles que não estão preparados, a glória subiu à cabeça de Antenor. Foi o começo do seu fim. E a história dele não é nem um pouco diferente das muitas que se conhece de ex-jogadores de futebol. Noitadas na farra, bebedeiras, mulheres, pouco treino e pouco futebol. O Flamengo dispensou-o em meados de 1954 e ele voltou a perambular pelos times pequenos, sem dinheiro.
O casamento acabou e os filhos (tinha três) não podiam vê-lo, já que sua ex-mulher não permitia. Ele abandonou o futebol e foi trabalhar de garçom justamente no bar do Eulídio. Isso faz 42 anos.
Mas, se vocês pensam que Antenor é um homem infeliz, estão muito enganados. Hoje ele tem um neto que joga no futebol holandês, vive de recordações e, seu maior orgulho, no Boteco, cheio de fotos, flâmulas e lembranças vascaínas, é que lá tem uma única foto do Flamengo, o do time antes da partida decisiva com o América. E Antenor está lá. Orgulhoso e feliz.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
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Um comentário:
Muito bom.
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