sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

EULÍDIO

Eulídio é o bom português dono do Boteco. Quase não conversa com ninguém, sempre atarefado atrás do balcão atendendo os fregueses. Mas, atrás desse mutismo, está uma pessoa extremamente comunicativa, por mais paradoxal que isso possa parecer. Basta olhar para os seus olhos, que “falam” por ele.

Às vezes, quando o movimento cai, principalmente ao final da noite, ele senta-se à minha mesa e, se não for para falar do Vasco, é sempre para recordar seus momentos de infância na sua cidadezinha em Portugal.

Eulídio está com 66 anos, sendo 50 de Brasil. Como todo imigrante, passou por dificuldades, mas, como a colônia portuguesa é muito grande e unida, principalmente no Rio, todos se ajudam. Logo ao chegar, conseguiu um emprego de faz-tudo num bar da Lapa, cujo proprietário era um patrício. Como tinha 16 anos, trabalhava só até às 8 da noite. Como todo bom português, tudo que ele ganhava, guardava. Só gastava uns trocadinhos para assistir aos jogos do Vasco aos domingos. Pois, foi com essas economias que, 10 anos depois ele conseguiu comprar o bar onde trabalhava e que hoje é o Boteco. Há 40 anos que Eulídio está atrás do balcão. E com a mesma simpatia de sempre.

Nessa segunda-feira, dia de pouco movimento, Eulídio, mais uma vez, falou-me de sua infância e da cidadezinha de onde veio.

Eulídio nasceu na freguesia de Freixo de Numão, pertencente ao Concelho de Vila Nova de Foz Côa, no extremo norte do Distrito da Guarda, Região de Trás-os-Montes e Alto- Douro. A sede do Concelho e maior município é Vila Nova de Foz Côa, e Freixo de Numão fica próximo de Vila Nova.

O Concelho de Vila Nova de Foz Côa pela grande densidade de amendoeiras em toda a sua área, reivindica, há muitos anos, o título de “Capital da Amendoeira”. É uma região muito bonita, principalmente quando começa a floração da amendoeira. Além dessa característica, o Concelho, como parte da cultura portuguesa, produz vinhos e azeites de qualidade.

Eulídio vai a Portugal todos os anos e não deixa, nunca, de visitar sua “querida terrinha” como ele fala. Freixo de Numão tem, hoje, uma população de 586 habitantes. É um povoado pequeno, como a grande maioria das freguesias de Portugal. E, por ser São Pedro o padroeiro do povoado, hoje transformado em vila, Eulídio é fervoroso devoto do santo.

Ele recorda, com água nos olhos, do seu tempo de criança, dos seus seis irmãos, quatro homens e duas mulheres. Ele era o quinto. Sua família, muito pobre, trabalhava com artefatos de madeira e latoaria, como a grande maioria da população. Colhiam amêndoas para os grandes produtores, que vendiam seus produtos em Vila Nova de Foz Côa no Largo do Tablado e na Feira de São Miguel, onde funcionava a “Bolsa da Amêndoa”. Gostava de ir lá com seu pai e seus quatro irmãos mais velhos para entregar as amêndoas.

Ele não se esquece da casa onde nasceu, na Rua das Lages, próxima da Capela Roqueira de Santa Bárbara, onde não só ele, mas toda a sua família foi batizada. E é com tristeza que, sempre que vai a Freixo, vê que, no lugar da sua casa, hoje tem um prediozinho todo colorido, junto com outros, que acabaram desfigurando uma das zonas mais bonitas do povoado.

Mas, nunca deixa de visitar o Pelourinho, a Casa Grande, a Casa da Justiça, a Casa do Lavrador Abastado, as Fontes da Rica e da Carvalha, o Tanque do Sapo, a Janela Manuelina, e outras riquezas do patrimônio arquitetônico.

Todos esses lugares trazem recordações que fazem dele uma criança. Como na primeira vez que levou a Manuela na Casa Grande e lá, escondidos atrás da casa, sentiram pela primeira vez, os prazeres de um abraço, de um beijo, da excitação. Descreve como foi o prazer de ter tocado pela primeira vez nos seios da Manuela e quanto ela gostou disso e retribuiu o prazer.

Eulídio é assim. Uma pessoa cheia de recordações, feliz com seu trabalho, feliz com a vida, com os filhos e netos, vascaíno roxo, um português orgulhoso de sua origem e feliz por ser brasileiro.

Ah, sim! E louco por uma mulata. E uma ginginha.
Benjamin

ANTÔNIO

Antônio é um rapaz de classe alta da zona sul carioca, universitário, inteligente, bom papo, simpático, bonito, conquistador. Vai com bastante freqüência à Lapa e, sempre passa no Boteco para conversarmos.

Gosto muito de conversar com ele. Conversamos sobre tudo: política, mulheres, futebol, sobre o curso de veterinária que está terminando, sobre o futuro, literatura, música.

Mas, Antônio é um dos milhares de sua classe social que financiam o tráfico de drogas no Rio, juntamente com aqueles de menor poder aquisitivo que precisam roubar para ajudar no financiamento.

Antônio é um consumidor de maconha e cocaína. Daqueles que dizem que não é viciado e que a droga é apenas um derivativo para aliviar o estresse. Que pode largar no momento em que quiser. Ouço há anos ele contar a mesma história.

E quando eu digo que ele financia o tráfico, acabamos sempre discutindo duro. Ele sempre diz que o problema não é dele e, sim, do Estado que tem a obrigação de acabar com o tráfico. E eu sempre digo que o problema é de todos e que enquanto tiver consumidor que financie o traficante, o Estado, sozinho, fica impotente.

Ele sempre fica bravo comigo quando toco nesse assunto.
Benjamin

O QUE PUXA A CANOA


Cheguei ao Boteco, como sempre, ao anoitecer. Quando entro, deparo-me com uma figura muito estranha sentada à minha mesa. Era um homem alto, de coloração acinzentada, desengonçado na maneira de sentar. Assustei-me e quase saio correndo, quando uma voz meio cavernosa disse “Por favor, não fuja, fique e converse comigo”.

Ainda assustado, sentei-me a seu lado e, quando toquei em seu braço frio percebi a dureza com que era constituído. Parecia pedra. E, o que é pior, era pedra. Granito, para ser mais exato.

“Mas, afinal, quem é você?”, perguntei um pouco titubeante.

“Sou O Que Puxa A Canoa”, respondeu com uma voz fria e assustadora.

“’O que puxa a canoa’????” “Como assim? Que canoa? Como é o seu nome?”. Eu estava atônito!

“Eu não tenho nome. Sou conhecido, apenas, como O Que Puxa A Canoa. Você conhece o Monumento às Bandeiras que fica no Parque Ibirapuera, em São Paulo? Pois é, eu sou o negão que fica do lado direito, todo torto, que está puxando a canoa das monções. Estou lá, na mesma posição, desde 1953, portanto há 54 anos, tentando puxar aquela maldita canoa que não sai do lugar nem com a ajuda do O Que Empurra A Canoa, meu amigo que fica por último e que tenta empurrar a canoa, que, por sinal, também é negão, e que fica o dia inteiro gritando pra mim ‘puxa essa merda, puxa essa merda, porra!’. Todas as descrições sobre o Monumento às Bandeiras dizem que a canoa está sendo puxada pelos negros, mamelucos e índios. Conversa fiada. Observe uma foto com cuidado e você verá que estão todos em pé, puxando porra nenhuma de canoa, e que somente eu e o Empurra é que estamos tentando fazer com que aquela merda de canoa vá pra algum lugar. Os bandeirantes – aqueles que a história conta como desbravadores e heróis, mas que não passavam de uns filhos da puta interessados apenas nas riquezas minerais e nos índios para escravizar, eliminando aqueles que os desafiavam – estão lá, esbeltos, em seus cavalos, enquanto o resto vai a pé e os negões, aqui, puxando a canoa. Fico chateado com tudo isso, pois o Brecheret poderia ter tido um pouco mais de consideração com a gente. Acho que ele foi sacana. Mas, enfim...”

“Pera aí! Você está me dizendo que é um dos personagens do Monumento às Bandeiras?!?!?!?!”

“Sou. Mas, afinal, por que todo esse espanto?”

“Como assim ‘por que todo esse espanto’?! Você pensa que é todos os dias que eu converso com uma estátua? Mesmo nos meus maiores dias de porre isso nunca aconteceu!”. Bem, esta última frase, confesso que não disse com muita convicção...

“Tá desculpe, eu entendo”.

“Mas, afinal, o que você está fazendo aqui e como chegou até aqui?” Eu fazia as perguntas, mas não acreditava que estava conversando com uma estátua. Enfim, fiz o jogo do ‘relaxa e goza’, muito utilizado por uma ministra que pratica sempre que se encontra em situações incômodas.

“Como eu cheguei até aqui é uma coisa muito complicada de explicar. Não vale a pena perder tanto tempo com isso. Mas o que eu vim fazer aqui, já é outra conversa. Primeiro, estava cansado de ficar na mesma posição por 54 anos e precisava esticar este velho corpo. E você não imagina como isso foi difícil. As juntas todas fudidas de anos sem movimentação. Foi difícil colocar tudo no lugar. Depois, sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. E, como eu mantinha correspondência com uma estátua daqui, conhecida como Índia, que fica no Largo da Penha, que, diga-se de passagem, é um tesão de estátua – ela me mandou fotos -, marquei encontro com ela aqui na Lapa, hoje. Além disso, não sou de ferro! 54 anos na maior secura!”

“Você mantinha correspondência com uma estátua?!?!?!? Co-rres-pon-dên-cia com uma estátua!!!!???? Mas, como?” Perguntei, já na minha sexta dose de cachaça.

“Olha, isso não tem muita importância e como é uma coisa muito difícil de explicar e você não vai entender mesmo, deixa pra lá. O importante é que nos iremos encontrar aqui hoje”.

Nesse momento, quando olho para a porta do Boteco, vejo uma linda índia, extremamente sensual, corpo escultural (perdoem-me o jogo de palavra, mais foi sem querer), com seios maravilhosos, um pouco cinza para o meu gosto, mas, vá lá, isso é apenas um pequeno detalhe diante da maravilha que estava à minha frente.

Imediatamente, O Que Puxa A Canoa levantou-se e ele e Índia saíram para o encontro esperado há anos. Lembro-me, um pouco depois, de ter sentido o Boteco tremer e de ter ouvido uns barulhos muito parecidos com rochas caindo umas sobre as outras.

Claro que não acreditei com o que tinha acontecido. Certamente, foi conseqüência das cachaças em excesso. Mas, mesmo assim, fiquei encafifado.

Não tive dúvida. No dia seguinte peguei a ponte aérea, desembarquei em Congonhas e pedi ao motorista de táxi que me levasse até o Parque do Ibirapuera. Ao chegar lá fui direto ver o Monumento às Bandeiras e imediatamente identifiquei O Que Puxa A Canoa. Ele me reconheceu e, com um sorriso nos lábios, deu uma piscadela pra mim.

Juro! É a pura verdade!

Quando vocês passarem pelo Ibirapuera e estiverem indo em direção a Avenida Brasil, dêem uma olhadela para o Monumento e vocês verão que ao menos um daqueles personagens apresenta um ar de felicidade.
Benjamin






quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

POLÍTICO

Político é apaixonado por política, daí seu apelido. Candidatou-se uma vez para vereador por um partido pequeno e obteve apenas um voto que, acredito, tenha sido o dele.

Aparece com freqüência no Boteco e é um dos grandes companheiros de cachaça e prosa.

Sempre preocupado com as questões político-sociais, fundou o PES, Partido dos Excluídos Sociais, cuja sede é na Lapa e o “escritório” é no Boteco, onde com Povunido, um dos poucos dirigentes, discute as diretrizes do partido.

O PES atende, exclusivamente, aqueles que, como o próprio nome diz, estão excluídos da sociedade.

Os sem-nomes, os sem-teto, os sem-esperança, os sem-vida, os sem-direitos, os sem-proteção, os sem-aniversário, os sem-Natal, os sem-presentes, os sem-panetone, os sem-Ano Novo, os sem-ceia, os sem-Páscoa, os sem-chocolate, os sem-carnaval, os sem-fantasia (literalmente!), os sem-lápide.

Político também é um deles. Ele é um sem-voz, pois poucos o ouvem.
Benjamin

POVUNIDO


Quando cheguei ao Boteco, Povunido já estava à minha mesa. Ele sempre aparece pra contar as novidades do mundo comunista.

Marxista convicto, daqueles de saber de cor a biografia de Marx, conhece O Capital de trás pra frente. Já deve ter lido O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels umas trezentas vezes.

Comunista de família. O avô participou da Guerra Espanhola contra o fascismo de Franco e o pai, militante comunista na revolução de 64, foi preso, torturado e morto. Sangue vermelho, mesmo.

Ninguém sabe o nome de batismo do Povunido, que sempre foi conhecido como O Povo Unido e acabou virando Povunido. Como ele sempre acha que alguém o está vigiando, ele argumenta que não revela o nome verdadeiro por medo da “repressão”, seja lá o que isso signifique nos dias de hoje. Povunido virou Povunido de tantas passeatas que fez e, ainda, faz, sempre gritando a mais famosa palavra de ordem da esquerda “o povo unido, jamais será vencido”.

É uma figura folclórica na Lapa. Não há quem não o conheça. Também, não tem dia em que ele não faça panfletagem. Ele é proprietário, editor, cronista e distribuidor do jornal semanal O Mundo Esquerdista. Todas as noites, após o expediente numa empresa multinacional – sim, porque comunista também precisa comer, venha o dinheiro de multinacional ou não, já que saiu da moda comer criancinhas! - ele está na Lapa distribuindo o seu jornal. Às vezes, sobe em cima de um engradado de cerveja e fica pregando sua ideologia. E seus discursos quase sempre giram em torno da exploração das multinacionais, do combate à privatização, e coisas desse tipo. Discursos que ninguém agüenta mais ouvir. Aliás, ninguém ouve, mesmo, diga-se de passagem!

Se você olhar pro Povunido você jura que ele é um coroinha. Se tem uma coisa que Povunido não faz é se fantasiar de comunista. Sabe, aquele tipo magro, com cavanhaque ou, mesmo, barba comprida, rabo-de-cavalo, óculos redondos (pode ser sem grau) pequenos de aros finos; jaqueta e calças surradas; tênis mais pra lá do que pra cá, além, claro, do indefectível boné estilo Mao. Povunido é o comunista menos estereotipado que conheço. É gordinho, baixinho, usa camisa por dentro da calça (com cinto), ambas sempre limpas, sapatos de couro, geralmente pretos, e meias brancas. Se um comunista russo, chinês ou seja lá de onde for, chegar ao Brasil e encontrar o Povunido, não vai acreditar que ele é um dos comunistas mais convictos do país.

É uma grande alma. Gosto muito de conversar com ele. Torcedor fanático do América do Rio, paixão surgida na infância quando viu, pela primeira vez, o time com a típica camisa vermelha. Aliás, diria que é torcedor fanático de todos os Américas do país, por causa da cor vermelha das camisas de todos os Américas. Com exceção do América mineiro, que a camisa é verde e preta.

Mas, às vezes, mostra-se o mais ingênuo dos mortais. Talvez pelo fato de não enxergar que existe vida além do mundo comunista, comete alguns absurdos que é de não acreditar. Um dia desse ele chegou ao Boteco com dois livros nas mãos, eufórico por ter pagado uma ninharia num sebo e que ele acreditava ser sobre comunismo, já que havia lido apenas os títulos. Um dos livros era o Meu nome é Vermelho, de Orhan Pamuk, e o outro O Vermelho e o Negro, do Ruy Castro.

Tive que explicar a ele que o livro de Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2006, apesar do título, não tinha nada de comunista e que se referia a um crime cometido em Istambul no século XVI, por um dos pintores miniaturistas contratados para iluminar um livro encomendado por um Sultão. E que o livro de Ruy Casto, O Vermelho e o Negro, não tinha nada a ver com a importantíssima participação do negro no comunismo, como ele imaginava, mas era, simplesmente, uma pequena grande história do Flamengo.

Fiquei com pena do Povunido. Acho, até, que não precisaria ter dito tudo isso a ele. Mas, pô, ele é meu amigo, eu respeito muito as convicções dele e não quero que ele vire motivo de chacota!

Mas, de qualquer maneira fui pra casa naquela noite com a nítida sensação de que não deveria ter contado sobre os livros. Tenho certeza que Povunido ficou magoado comigo.

Benjamin







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segunda-feira, 26 de novembro de 2007

OTÍLIA E ALTAIR

Conheço Otília e Altair há 45 anos quando, pela primeira vez, visitei a Rua do Mangue, no centro da cidade, o local mais famoso e freqüentado do baixo meretrício carioca. Isso foi em 1962, se não estou enganado, ou, mesmo, antes. Dividem com freqüência a minha mesa no Boteco, quando conversamos sobre diversas coisas, principalmente, sobre os “bons tempos”. Tempos em que se podia andar pelas madrugadas cariocas sem medo.

A rua era muito movimentada e freqüentada por toda espécie de gente: marinheiros dos mais distantes pontos do mundo, gigolôs, malandros, turistas estrangeiros, curiosos, enfim, todo tipo de pessoa, a maioria com poucos trocados para passar alguns momentos de prazer.

Também se via muita gente da fina flor da sociedade carioca, não só homens mas, também, mulheres, além de políticos conhecidos, à busca de um prazer proibido. Mas, estes procuravam esconder-se atrás de seus chapéus, echarpes, ou seja lá o que for, para não serem reconhecidos. Não era sem motivo, já que por lá sempre circulavam repórteres fotográficos ávidos por publicar um escândalo. Morriam de pavor só de pensar em ver suas fotos estampadas na primeira página do Diário da Noite ou serem motivos de reportagem no O Cruzeiro.

Era um vai-e-vem constante pela rua ou nas calçadas, à escolha das mulheres que ficavam expostas nas janelas das casas, apoiadas por horas nos parapeitos. (Daí a famosa frase “tem até calo no cotovelo” para designar alguém que tem vasta experiência em alguma coisa). Ou, então, ficavam numa sala, aguardando os fregueses, num entra e sai que não acabava nunca. Afinal, numa atividade de alta rotatividade.

Otília era uma das mais belas e disputadas prostitutas do Mangue. Não havia quem não se apaixonasse, literalmente, por ela. Não só por sua beleza mulata, sensualidade e maneira como satisfazia seus fregueses, mas, também, pelo carinho com que tratava a todos e, muitas vezes, a todas. Quando a conheci ela tinha 18 anos e, desde então, nos tornamos muito amigos. Sempre que ia ao Mangue eu a procurava e, se ela estava ocupada, esperava o final do expediente quando, então, ficávamos conversando e tomando nossas cachaças e cervejas até o amanhecer, junto com o Altair, sua grande paixão, com quem, também, eu mantinha uma grande amizade.

Altair era marinheiro da marinha mercante brasileira e vivia circulando pelo mundo. Era um negro alto, bonito e vistoso e, por onde passava, chamava a atenção. Era extremamente simpático, tinha muitos amigos e reinava no Mangue, o que despertava um tremendo ciúme na Otília. Não foram poucas as brigas que eu presenciei entre a Otília e outras mulheres, para defender “seu homem”. E o Altair, malandro, ficava só olhando de longe, deliciando-se com aquela disputa. Mas, no final das contas, era para a Otília que ele sempre voltava.

Uma das maiores paixões de Altair era viajar e desembarcar nos portos do mundo todo. Com exceção da Oceania, conhecia muitos portos de diferentes países dos outros continentes. E, dizia ele, em cada porto que chegava, havia alguém a esperá-lo. Isso até parece frase feita, mas, em se tratando do Altair, não era pra duvidar. Mas, por sua vez, vivia contando os dias, horas e minutos para desembarcar no Rio e correr para os braços da Otília. “Insubstituível”, dizia ele.

Como todo malandro da época, ele gostava de se vestir a caráter: calça impecavelmente branca com vinco rigorosamente bem passado, camisa colorida de seda com mangas compridas, chapéu panamá, meias brancas, sapatos brancos com pequenos furos e detalhes em vermelho nas laterais e na parte de cima e, lenço branco de linho, fundamental para enxugar o suor das mãos. (Para ele, tocar numa mulher com as mãos suadas era de uma indelicadeza imperdoável). E, claro, a inseparável navalha em um dos bolsos. Sempre perfumado com os melhores perfumes franceses e os cabelos bem penteados e lustrosos com a melhor brilhantina.

Otília está com 73 anos e Altair, com 78. Estão casados no sentido de que estão juntos desde a época do Mangue. Hoje eles dirigem uma próspera empresa de Prestação de Serviços, na Lapa, sendo que o “escritório” deles fica no Boteco.

Eles têm, à sua disposição, um bom número de “meninas” que, diga-se de passagem, são muito bem tratadas. Elas têm assistência médica, odontológica e registro em carteira, obviamente não como “modelo e atriz” já que não são tão finas como estas, mas como secretárias, recepcionistas, auxiliares de enfermagem. Têm férias remuneradas, maior porcentagem no final do ano. Aliás, foi depois de eu indicar o livro do Vargas Llosa, “Pantaleão e as Visitadoras” para eles lerem, que passaram a encarar a atividade de maneira mais profissional. Antes, não tinham controle das “meninas”, não havia livro caixa, nada disso. Agora, todo fim de noite, eles sentam-se em uma mesa do boteco e as “meninas”, na mais absoluta confiança, ao final do expediente, cientes do dever cumprido, entregam a féria do dia, recebem sua parte, para, finalmente, voltar às suas casas para repousar depois de um exaustivo dia de trabalho, certas de que estão sendo cuidadas, assistidas e protegidas.

Aliás, principalmente, protegidas, porque, tentem fazer alguma coisa de mal para as “meninas” da Otília e do Altair. Ele continua calçando sapatos brancos com detalhes em vermelho e ainda sabe manejar muito bem a sua navalha.
Benjamin

sábado, 24 de novembro de 2007

EU, HEIN!


Há dias na vida da gente que é preferível não colocar os pés pra fora de casa. Comigo aconteceu numa segunda-feira. Mas, como não consigo deixar de ir ao Boteco, resolvi sair.

Segunda-feira é um dia de pouco movimento no Boteco e, mesmo, na Lapa. Afinal todos são filhos de Deus e têm seus dias pra descansar. Não há puta, traveco, malandro, ou indivíduo de qualquer outra profissão, que agüente uma segunda-feira depois de um final de semana puxado. As meninas da Otília e Altair, por exemplo, têm folga na segunda-feira. Poucos e poucas são os que ficam por ali. As exceções ficam por conta dos “viciados” em Lapa, dos moradores de ruas, dos eira nem beira...

Eu, como sempre, estava lá ‘batendo ponto’. Afinal, pra quem gostar de bebericar, de ouvir e contar histórias, não dá pra ficar um dia sem freqüentar a Lapa e, particularmente, o Boteco.

Mas, essa segunda-feira estava um pouco devagar. Ninguém pra conversar. O Eulídio, praticamente, dormia no balcão. O Antenor, sem ter muito a quem atender, assentou os quartos numa cadeira e lá ficou.

Eu estava absorto na minha mesa (minha sem aspas, pois eu já assumi que a mesa é minha. Mania de grandeza...) olhando o pouco movimento lá fora, quando ouvi uma voz (eu não sei o que acontece comigo com essa coisa de ficar ouvindo vozes...).

“Oi!”, alguém falou com uma voz grossa e melodiosa.

“Oi!”, respondeu uma voz feminina e doce.

Percebi que o som vinha da prateleira que fica atrás do balcão. E o diálogo continuou...

“Você é nova aqui?”

“Cheguei hoje. Sou de Parati”.

“Parati? Adoro Parati. Lá tem muitos apreciadores”

“É, tem sim. Eu gostaria de ter ficado lá onde estão todas as minhas amigas, mas, você sabe como é essa nossa vida, não temos autonomia”.

“É verdade. Mas, eu acho que conheço você! Qual é a sua graça?” Ele era muito metido a querer falar difícil e achava que perguntar ‘qual sua graça’ ao invés de ‘qual seu nome’ ou, então, ‘como você se chama’, era mais envolvente, impressionava mais.

“Eu me chamo Maria Izabel. Você é o Anísio Santiago, não?”

“Ooohhh!! Você me conheeeeceeee?!?!” responde Anísio com a falsa modéstia e a soberba que sempre o caracterizou, com a voz mais melodiosa ainda.
“Claro, quem não te conhece?” respondeu Maria Izabel, já fascinada pelo Anísio. “Você é de Salinas”, continuou, “possui uma graduação alcoólica de 44,8%, permanece de 6 a 8 anos em tonéis de carvalho e bálsamo, o que te deixa com cheiro de madeira seca, além de um leve amargor que permanece na boca, com sabor e aroma persistentes. Você é forte!” Maria Izabel pronunciou esta última palavra com tal sensualidade que fez Anísio tremer na prateleira. “Sem contar que você é mais que uma cachaça – é um mito!”

Ao ouvir a palavra “mito”, Anísio já não conseguia se controlar, tanta era sua vaidade. Por pouco ele não despenca da prateleira.

“Além do mais”, continuou Maria Izabel, “você foi o segundo colocado no Ranking Playboy da Cachaça”.

“E você foi a 11ª. colocada...! Agora me lembro onde a vi pela primeira vez e como fiquei deslumbrado pela sua beleza. Apesar de você ter uma graduação alcoólica de 44% e ficar entre 1 e 4 anos em carvalho, você é de uma suavidade, aroma e sabor indescritíveis”, disse Anísio e completou “e apaixonante...”

Anísio e Maria Izabel já estavam em outra dimensão.

“Você fica muito sensual nesse rótulo”, disse Anísio, já ciente de que algo de bom iria acontecer entre eles.

Maria Izabel percebeu o olhar de Anísio para além de seu rótulo e, como quem não quer nada, já com a certeza de que tinha conquistado o ‘segundo colocado do Ranking da Playboy’, falou com uma voz suave e quente: “fui convidada a posar para a Playboy...”

“Não me diga!!!”, respondeu Anísio babando..

“Serão fotos artísticas sem rótulo”, respondeu a ‘despretensiosa’ Maria Izabel.

Bom, depois de ouvir isso, eu me levantei, olhei para a prateleira e fui embora, preocupadíssimo. O que eu pensei ter ouvido foi, com certeza, conseqüência das doses que eu tomei de Anísio Santiago e Maria Izabel.

No dia seguinte, voltei ao Boteco, sentei-me à minha mesa, olhei de soslaio para a prateleira, chamei o Antenor, para pedir uma dose, quando ele começou a contar que por duas vezes, na noite passada, ele acordou com um barulho estranho, típico de garrafas quando batem umas nas outras. Ele desceu preocupado achando que tinha algum ladrão no bar, mas estava tudo em ordem.

Imediatamente, olhei para a prateleira e percebi que o rótulo da Maria Izabel estava desarrumado e rasgado numa das extremidades...

Cancelei o pedido, levantei-me e sem dizer nada, fui embora. Antenor não entendeu nada.

Prometi que a partir daquele dia que nunca mais iria misturar cachaças.

Eu, hein!

Benjamin

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Um pouco mais picante...

SOB O SOL


Onde não estás... estás!

Sob o sol claro
sinto teu passo companheiro
vivendo na minha sombra.

Em meio à brisa morna, envolvente,
sinto tuas mãos tocarem meus seios
que vibram a espera dos teus lábios... da tua boca.
E sob o sol úmido
teus beijos escorrem por minha pele nua.

Sinto roçar meus olhos
a imagem (brilhante) do teu sorriso
capturado naquele momento preciso
que revela o presente recebido,
oferecido, trocado, compartilhado.

Meu sorriso então surge sob o sol quente
no reflexo de tuas ondas de magia
que ternamente acariciam minhas pernas.

Assim viajo na irrealidade onírica do desejo
Pois, onde estás... na realidade, não estás.

Por isso escrevo, escrevo, escrevo...
Só para te manter dentro de mim.

Gabi Oliveira

Minha amiga Paroxetina.

REFORMATAÇÃO

Minha auto-imagem
era minha sombra
Agora ela sou eu
Só que não sou mais eu
Quer dizer, não sou totalmente eu

Sou totalmente auto
Totalmente imagem

Santo antidepressivo!


Gabi Oliveira

Tem a da pinga do benjamin...

Espírito de Parati

Maria Isabel
Cor de mel

Mulher poderosa,
Entrosa!
Na boemia
Anestesia!
Boa de prosa,
Dosa!
Mesmo de dia
Extasia!
Sem força bruta
Recruta!
Não fica à toa,
Voa!
Fêmea astuta
Luta!

E ainda atordoa
Muito boa...

Gabi Oliveira

Psicanalítico

PERSONA

Não se iluda com a persona
Ela esta ai para seduzir, aliciar adeptos
Para uma seita bastante sinistra.
Adeptos não, vítimas!
Vítimas para um ritual de sacrifício.
Vítimas a serem queimadas
No fogo dos instintos selvagens.
E não se iluda!
Por trás da persona sólida e serena
A carne arde... como magma.

Gabi Oliveira

Uma provocação!

ENCANTO E DESENCANTO

Só os novos amam
Sinceramente amam o amor
Sem ressalvas sonham o amor
Sem reservas vivem o amor

Só os novos anseiam pelo amor
Saboreiam o amor
Se embriagam de amor
Sofrem pelo amor e pelo desamor

Só os novos sentem fé no amor

Os velhos... são pragmáticos

Gabi Oliveira

CD Marina De La Riva

Marina De La Riva é mineira, filha de brasileira e cubano. O CD que leva o seu nome tem uma mistura de músicas cubanas e brasileiras. A seleção musical é de primeira. Não sai do rádio do meu carro. RECOMENDO!!!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

INFARTO

O coração isquêmico
reclama por oxigênio.
Que venham as palavras
aliviar esta angina
pousando suas mãos
sobre o tecido agonizante.

Que venha a poesia
irrigar o músculo que morre
com os rítmicos afagos
das formas e das imagens.

Que venha a beleza
substituir a necrose
restaurando fibra por fibra
o coração abandonado.

Gabi Oliveira

Voa ao vento (voa ao verso)

Voa ao vento...(volátil).
Voa no vapor do vermute e da vódca.
Voa no vigor do vômito,
no vermelho do Vesúvio vivo,
no vai e vem do vulto volúvel das vagas.
Voa vadia ou virginal,
com velocidade vertiginosa
ou vincada de vírgulas.
Mas, voa! Voa na voz do verso
antes que o vento se esvaeça...

Gabi Oliveira

Sem palavras

Foram tantas as palavras...
Palavras ardilosas,
Palavras brandas,
Amorosas,
Iradas,
Calorosas..., emocionadas!

Foram tantos os jogos verbais...
Jogos para agredir;
Jogos para conquistar;
Iludir,
Provocar,
Seduzir..., arrebatar!
Agora só queria te dar
Alguns poucos minutos
De silencioso carinho.

Gabi Oliveira

JOÃO BAPTISTA


Algumas histórias estranhas acontecem no Boteco. Estava tranqüilamente à “minha” mesa, desta vez tomando somente água com gás, uma vez que a noite passada foi um pouco “complicada”, quando ouço um “Psiu! Psiu!”. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Perguntei para o Eulídio se alguém estava me chamando e ele também não viu ninguém.

Mas, o “Psiu! Psiu!” continuava e, quando olho em direção à porta, vejo que havia um rosto atrás dela, provavelmente alguém sentado sobre um banquinho. Esse rosto, que eu visualizava apenas a metade, olhava para mim, com o olho arregalado, o que, confesso, me deixou um pouco assustado. Ele perguntou se podia ir até a minha mesa para conversarmos e eu disse que sim. Olhei para o lado para pedir mais uma água com gás e, quando me viro, dei um pulo e caí da cadeira. Não podia acreditar no que estava vendo. Em cima da mesa tinha uma cabeça, apenas uma cabeça, que olhava para mim, tão assustado quanto eu.

“Por favor, não fique assustado comigo.”

A cabeça fa-la-va!!! Juro, a cabeça falou comigo. Fiz menção de fugir, mas a cabeça repetiu, com uma voz tão doce, para que eu não ficasse assustado com ela que, aos poucos fui me recuperando e, temeroso, voltei a sentar-me.

“Ma – ma – mas, que- que- quem é você???” perguntei, ao mesmo tempo que estava assustado e pensava o quão ridículo era aquela situação, eu falando com uma cabeça.

“Sou João Baptista”, respondeu olhando de soslaio, meio assustado.

“Jo-jo-ão Ba-bap-tista? O da cabeça?” Quando falei a última frase percebi o ridículo dela.

“Sim, ‘o da cabeça’”, respondeu João Baptista, resignado e já meio de saco cheio. Bom, se é que uma cabeça fica de “saco cheio”.

Um pouco mais recuperado do susto inicial, tentei entender o que estava acontecendo ali. Tinha uma cabeça em cima da mesa, falando comigo e eu estava falando com ela, o que é pior... Percebi que algumas lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto. Estava claro que ali estava uma cabeça com problemas.

“Desculpe-me se te assustei, mas não tive nenhuma intenção. Sei que sou assustador, afinal, não é todo dia que se vê uma cabeça falante. Mas, por favor, converse comigo. Eu me sinto muito só. As pessoas fogem de mim quando chego perto. Por isso, vivo escondido. Mas eu preciso conversar, eu preciso que olhem nos meus olhos, sem medo.”

Fiquei sensibilizado com as palavras do João Baptista e comecei a conversar. Estava, agora, curioso para conhecer a história dele.

“Você, por acaso, é o João Baptista, primo de Jesus, que um dia foi, digamos, como poderia dizer, eh... decapitado???”
“Sim, sou eu”

“Mas isso foi há milênios e você está aí, inteiro, desculpe, isto é, inteiro no sentido de que a cabeça ainda está, digamos, inteira? Como é possível? Como você chegou aqui?” perguntava eu, pasmo.

“Essa é uma história longa e o que devo dizer é que, durante milênios, desenvolvi uma técnica de pensamento que permite que eu me desloque para onde quiser, para a época que quiser”.

“Mas o que você veio fazer justamente aqui, no Brasil, no Rio de Janeiro, na Lapa, no Boteco, e, principalmente, na “minha” mesa?”.

“Bom, primeiro, senti tive curiosidade de conhecer o Brasil, especialmente o Rio, onde ouvi dizer que os homens perdem a cabeça pelas belas mulheres que aqui tem. Achei que iria encontrar inúmeras cabeças perambulando e que seria o lugar ideal para eu viver, finalmente, em paz. Mas, qual! Ledo engano! Todos têm a cabeça no lugar. E o fato de estar na sua mesa, foi puro acaso”, disse, desconsolado, João Baptista.

Tive que explicar a ele que “perder a cabeça” era somente no sentido figurativo. Significava que os homens ficavam loucos por uma mulher, mas que não perdiam, literalmente, a cabeça. Mas não pude deixar de notar a decepção dele.

Já estava criando certo vínculo afetivo com João Baptista, quando perguntei se ele gostaria de comer alguma coisa. Alguns salaminhos, torresminhos, coisas assim, bem leves para uma cabeça, imagino eu. Ele respondeu que sim, todo entusiasmado e já olhando pra mim com certa afetividade. Acho que estávamos virando amigos.

Nesse dia, Antenor não foi trabalhar, pois estava um pouco adoentado. Quem veio substituí-lo foi Salomé, uma mulata estonteante que deixava o Eulídio louco.
Virei-me e pedi: “Salomé, traz uma bandeja de frios aqui pro meu amigo João Baptista.”

Ao olhar em direção à mesa, João Baptista estava branco, suava e gritava desesperado: “Salomé?! Bandeja?! Salomé?! Bandeja?!”

De repente, João Baptista escafedeu-se, sumiu e nunca mais foi visto.

Naquele dia eu decidi que nunca mais iria tomar água com gás!










ANTENOR

Antenor mora há 42 anos num quarto encima do Boteco, onde vive de suas recordações, que não são poucas. É o garçom mais antigo de lá e o que mais leva a sério a sua profissão. Até hoje, veste-se com a tradicional roupa dos garçons, ao contrário de seus colegas mais jovens, apesar do Boteco ser um botequim. Botequim sim, mas com dignidade, diga-se de passagem! Seu paletó, apesar de um pouco surrado, está sempre branco, sem manchas e a gravata borboleta sempre muito bem arrumada.

É extremamente solícito com todos, faz absoluta questão de agradar o freguês. Sempre que eu vou chegando, Antenor, já vai trazendo uma dose de minha cachaça preferida. Bom, devo dizer que essa dose sempre muda, uma vez que todas, ou quase todas, são as minhas “preferidas”. Mas, como freqüento o Boteco há anos, Antenor sabe do que eu gosto.

Antenor e eu somos muito amigos, não só porque simplesmente aprendemos a gostar um do outro mas, também, pelo fato de sermos flamenguistas de terra e mar. De “carteirinha”. Talvez isso tenha nos aproximado mais ainda. Quando conversamos sobre o Flamengo, o Eulídio, dono do Boteco e vascaíno convicto como todo bom português, nem chega perto.

Adoro as histórias do Antenor sobre o Flamengo e não me canso de ouvi-las, principalmente aquela do campeonato do Mengão em 1953, que levou ao segundo tri do time em 1955. É a que mais me emociona, pois foi quando me apaixonei pelo Flamengo. Eu tinha 8 anos e “via” os jogos pelo rádio. E, o que é mais fantástico, Antenor jogou a partida que deu o título ao Flamengo, contra o América, e fez o gol da vitória. Então, vocês imaginem quanta emoção quando conheci o Antenor, muitos anos depois.

Antenor está com 73 anos. Nasceu em Madureira, subúrbio do Rio e, como todo garoto, sempre gostou de futebol. Era centro-avante e, desde os 15 anos, jogou em times profissionais, tradicionais, mas sem muito destaque no mundo futebolístico: Madureira, São Cristóvão, Olaria, Bangu, Canto do Rio lá de Niterói. Não era um craque, mas, também, não chegava a ser um cabeça-de-bagre. Até que um dia a sorte do Antenor mudou. Durante um jogo do São Cristóvão contra o Flamengo, vencido por aquele por 2 a 0, Antenor, que havia feito os dois gols, jogou como nunca. Estava inspiradíssimo. Foi o que bastou para Fleitas Solich, técnico do Flamengo, contratá-lo.

Isso foi no final de 1953, ano em que o Flamengo foi Campeão Carioca. Era um timaço: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Paulinho, Rubens, Índio e Zagallo. Sem contar com Dida, Moacir, Henrique e outros cracaços que levaram o Mengo ao seu segundo tri em 1955. Quando Antenor chegou à Gávea e começou a treinar com esse time, não acreditava que a vida tinha dado a ele essa grande oportunidade.

Mas, não era fácil arrumar um lugar no time. Também, como tirar um Rubens ou um Índio do time? Dificilmente ele jogava uma partida oficial. Às vezes, nem na reserva ficava, já que ele era o segundo reserva do Rubens. O primeiro era Nando.

Mas, como sempre, o imprevisto pode bater à porta e a gente tem que estar preparado para recebê-lo. Era a última semana antes do jogo decisivo contra o América. Rubens havia se machucado e não poderia jogar a decisiva. Nando iria substituí-lo. Antenor passaria à reserva. Nando era um bom jogador, mas um tanto indisciplinado. Na véspera do jogo, Nando fugiu da concentração e foi ao Mangue, tradicional reduto carioca da prostituição. Voltou somente no dia seguinte pela manhã, horas antes do jogo, completamente bêbado e sem nenhuma condição de jogar.

Escalado na última hora para jogar a final, Antenor não temeu e nem tremeu. Foi seu grande dia de glória. Marcou três no América e saiu nos ombros do povão. Só se falava nele. Nelson Rodrigues escreveu as mais belas crônicas sobre ele no Jornal dos Sports e no O Globo. Foi a grande consagração de Antenor que, por onde passava, era reverenciado, beijado.

Mas, como a história não perdoa e se repete para aqueles que não estão preparados, a glória subiu à cabeça de Antenor. Foi o começo do seu fim. E a história dele não é nem um pouco diferente das muitas que se conhece de ex-jogadores de futebol. Noitadas na farra, bebedeiras, mulheres, pouco treino e pouco futebol. O Flamengo dispensou-o em meados de 1954 e ele voltou a perambular pelos times pequenos, sem dinheiro.

O casamento acabou e os filhos (tinha três) não podiam vê-lo, já que sua ex-mulher não permitia. Ele abandonou o futebol e foi trabalhar de garçom justamente no bar do Eulídio. Isso faz 42 anos.

Mas, se vocês pensam que Antenor é um homem infeliz, estão muito enganados. Hoje ele tem um neto que joga no futebol holandês, vive de recordações e, seu maior orgulho, no Boteco, cheio de fotos, flâmulas e lembranças vascaínas, é que lá tem uma única foto do Flamengo, o do time antes da partida decisiva com o América. E Antenor está lá. Orgulhoso e feliz.

O BOTECO


O BOTECO

Na melhor localização da Lapa, em frente aos Arcos, está o Boteco. É o meu local preferido e onde tenho a “minha” mesa, como freqüentador assíduo, colocada em um lugar estratégico do botequim.
Como sempre faço todos os dias ao anoitecer, vou ao Boteco, meu botequim preferido na Lapa, o bairro mais boêmio do Rio. É lá que eu aprendo um pouco da vida, ouvindo histórias contadas desde os mais humildes até os mais abastados. Cada um vivendo a seu modo, com seu problema, ou sem problema, fazendo o que lhe foi destinado na vida. Alguns vivendo “como Deus quer”, como dizem, embora, seja difícil acreditar que Deus, se existe, queira que vivam assim. Mas, vamos deixar isso de lado, pois teríamos que entrar numa discussão teólogo-filosófica que, certamente, não irá levar a lugar nenhum. Além do que, não tenho conhecimento teológico ou filosófico para discutir assunto tão relevante.

Por lá passa, todas as noites, a mais variada “fauna”: boêmios inveterados com seus violões, bêbados, gente de “bem”, prostitutas, travestis, proxenetas, traficantes, jogadores de futebol, universitários, profissionais liberais, funcionários públicos, músicos, políticos, desocupados de todas as “profissões”, moradores de rua etc, etc.

Enquanto observo o movimento, vou bebericando minha cachacinha, comendo meu torresminho, tomando uma cerveja, ou mesmo, apenas uma água. O que importa é estar lá e encontrar os amigos de sempre, como o Eulídio, proprietário do Boteco; Antenor, o garçom mais antigo; Otília, ex-prostituta e, atualmente, cafetina das mais respeitadas; Altair, ex-marinheiro e “marido” da Otília com quem dirige os negócios; Antônio, moço rico de Ipanema; Joana, residente em Copacabana, filha de um alto funcionário de uma multinacional; Povunido, eterno marxista; Gerúndio, funcionário de uma empresa de TV paga; Alemão, engraxate que sabe de tudo o que acontece na Lapa e que reside no Complexo do Alemão; Político, metido a político e eterno candidato que nunca conseguiu eleger-se pra nada; e, os muitos Anônimos, conhecidos de quem a gente nunca lembra o nome.

Lá, na “minha” mesa, ouço histórias de todo tipo. Muitas com final feliz, outras nem tanto. Algumas muito estranhas.

Quando for ao Rio apareça no Boteco pra gente bater um papo. Fica em frente ao sexto pilar que sustenta os Arcos. A “minha” mesa você reconhece facilmente. Se eu não estiver lá, deixe um recado com o Eulídio ou o Antenor que eu te encontro.

PAIXÕES E DESENCONTROS

“Paixões e Desencontros
ou
“A Triste História de Bêbado que Amava Equilibrista que Amava Burner que Amava Sá Marina que Amava Bêbado”.


Esta é a história de Bêbado e Equilibrista e Burner e Sá Marina, dois casais que viviam em mundos diferentes, que se amavam, mas que, por força de desencontros tiveram suas vidas mudadas e feridas.

Bêbado e Equilibrista viviam na Lapa, tradicional reduto boêmio do Rio de Janeiro. Conheceram-se há muitos anos, lá mesmo, numa noite quente de sábado, com o tradicional samba carioca animando os freqüentadores.

Bêbado – o nome já diz tudo – era um freqüentador assíduo do mundo boêmio da Lapa, exímio violonista e cantor. Encantava a todos que o ouviam interpretar os mais bonitos sambas e sambas-canções.

Equilibrista, cujo nome recebeu do tempo em que atuava como equilibrista de um circo russo, era assídua freqüentadora da Lapa e fã incondicional de Bêbado, por quem se apaixonou.

Burner e Sá Marina moravam num fantástico apartamento de cobertura na Vieira Souto, em Ipanema. Burner era presidente de uma multinacional americana, com sede no Rio, e estava no Brasil há cerca de dez anos. Conheceu Sá Marina, típica Garota de Ipanema em todos os sentidos, durante uma visita turística ao Corcovado. Apaixonaram-se e, dois anos após o primeiro encontro, casaram-se. Burner era muito reservado, ao contrário de Sá Marina, expansiva e que gostava de freqüentar locais boêmios, como a Lapa.

Bêbado e Equilibrista viveram felizes por muitos anos. Foram Anos Dourados de harmonia, felicidade, paixão, tesão, amor verdadeiro. Mas, como todo grande amor, este também estava sujeito a desencontros. E era o que estava acontecendo. Talvez movida por ciúmes, ou mesmo, por desencanto, a relação de Bêbado e Equilibrista não estava bem. Bêbado era um boêmio por natureza, sempre rodeado por admiradoras e Equilibrista já não estava mais suportando tanto assédio a ele, assim como, estava à procura de uma vida mais segura, o que Bêbado, certamente, não oferecia a ela. A convivência entre os dois estava se tornando difícil e Equilibrista precisava de um tempo, só, para refletir sobre suas vidas.

Burner e Sá Marina passavam pelo mesmo processo de desencontros, movidos, principalmente, pelo temperamento diferente deles. Burner era muito Carinhoso mas, somente isso não satisfazia Sá Marina. Ela gostava de viver intensamente, curtir as boas coisas que a vida oferecia. Gostava de freqüentar a Lapa, geralmente acompanhada de amigos, já que Burner não gostava de ir a esses locais, não por preconceito ou qualquer coisa desse tipo, mas, sim, simplesmente porque não curtia. E foi, numa de suas idas à Lapa que Sá Marina conheceu Bêbado e ficou enfeitiçada.

Equilibrista foi à Bahia a passeio, para tentar esquecer as desavenças com Bêbado quando, então, sua vida começou a mudar no momento em que, na Baixa do Sapateiro, encontrou Burner. Este foi à Bahia para curar a grande ressaca do amor perdido, já que o grande amor de sua vida Sá Marina, havia confessado que estava apaixonada por outro homem. Ao vê-lo, Equilibrista apaixonou-se imediatamente. Equilibrista era uma mulher muito bonita, corpo escultural, chamava a atenção por onde passava e Burner não deixou de notá-la. Para Burner, aquela era a ocasião ideal para curar sua ressaca de amor. Aproximaram-se, conversaram, jantaram a luz de velas no Asa Branca, restaurante famoso de Salvador e, de lá, foram direto ao Hotel Amazonas, ali mesmo, na Baixa do Sapateiro, onde viveram o grande momento da complementação do amor. Equilibrista, apaixonada, sussurrava em seu ouvido “I’ve got you under my skin”, “Fly me to the moon” e Burner, Carinhoso, retribuía o pedido. Passaram dias maravilhosos em Salvador, vivendo intensamente cada segundo de suas vidas. Mas, como tudo não passa de uma ilusão, Nada Além que uma ilusão, era hora de voltar à realidade. Era hora de retornarem ao Rio.

Sá Marina, por sua vez, continuava a freqüentar a Lapa e estava cada vez mais apaixonada por Bêbado. Este é claro, não deixou de notar o assédio de Sá Marina. Até que, numa daquelas noites maravilhosas em que a lua cheia iluminava os arcos da Lapa e os corações dos apaixonados, Bêbado e Sá Marina, descendo a Rua da Ladeira, entraram no St. Louis Blues, hotel de quinta categoria, onde passaram uma noite inesquecível.

Apesar da aventura vivida por eles, Bêbado e Equilibrista, assim como, Burner e Sá Marina, continuavam vivendo juntos. Bêbado continuava amando Equilibrista, e Burner, Sá Marina. Eram os grandes amores de suas vidas. Mas, essa convivência não duraria muito tempo. Os casais não se conheciam e não sabiam que suas vidas estavam entrelaçadas.

Sá Marina só pensava em Bêbado e não via a hora de revê-lo, mas evitava ir sozinha à Lapa. Num Saturday Night, como Burner costumava chamar os sábados de agitação no Rio de Janeiro, Sá Marina conseguiu convencer Burner a levá-la à Lapa. Mesmo à contra gosto, Burner concordou, pois queria reconquistá-la. Sá Marina ficou exultante, pois essa era a oportunidade de rever Bêbado.

Bêbado, como sempre, estava acompanhado de Equilibrista, rodeado de admiradores, dedilhando com nostalgia as cordas de seu violão, quando ambos viram Burner e Sá Marina aproximarem-se da mesa onde estavam. Nesse momento ouviam-se, apenas, as batidas aceleradas dos corações.

Não havia mais como disfarçar. Burner percebeu os olhares apaixonados de Sá Marina para Bêbado, assim como, Bêbado percebeu os de Equilibrista para Burner. Formou-se uma intensa atmosfera de ciúmes.

Já não suportando o ciúme que dilacerava seu coração, Burner perguntou, alterado, à Sá Marina “Who’s that creeping?”. Sá Marina, também alterada, respondeu “Don’t get around much anymore”, não suportando mais a presença de Burner que, alucinado, pensava “They can’t take that way from me”, “They can’t take that way from me”!

Equilibrista, vendo toda a cena de Burner e Sá Marina, foi ao encontro de sua grande paixão. Nesse momento, Bêbado percebeu que os Anos Dourados com Equilibrista haviam ficado na Baixa do Sapateiro.

Movido pelo ciúme, Bêbado sacou sua arma e apontou em direção a Burner. Equilibrista percebeu e gritou, desesperada, “Hay Burner”. Burner virou-se e Bêbado, à queima roupa, deu um Satin Doll em Burner que caiu ali mesmo, ensangüentado. Bêbado, assustado, deixou a arma cair. Equilibrista pegou a arma e, desesperada, atirou em Bêbado. Sá Marina gritou em desespero, avançou sobre Equilibrista, tomou a arma dela e matou-a. Num gesto extremo, vendo seu grande amor morto, Sá Marina apontou a arma para a própria cabeça e atirou.

Quatro corpos estendidos no chão, cobertos com folhas de jornal que anunciava uma tragédia, circundados por velas acesas. Mortos pela traição. Mortos pelo ciúme. Mortos pelo amor.

É! Se estivessem vivos e presentes, Lupicínio Rodrigues teria dito a Noel Rosa, numa típica Conversa de Botequim, “Esses Moços, pobres moços, ah! se soubessem o que eu sei...”

É uma merda...

CIÚME
Mergulho na dúvida, na amargura, na angústia, na loucura.
Mergulho sem ternura, sem candura, sem doçura.
Mergulho nua na rua imunda e puta me torturo
Num murmúrio lúgubre e inútil.
Mergulho fundo... luto.
Luto... murcho.
E, de luto,
Fujo

Síncopa

Um passo em descompasso não fica bem na marcha enfadonha — e nada musical — dos soldados.

Que quero eu com soldados?